As Lâminas do Sol
Em um pequeno descampado, escondidos entre árvores tortuosas, os bandidos remanescentes cuidavam de seus ferimentos e de suas montarias exaustas, enquanto o cheiro de sangue e terra se misturava no ar.
Varric cuspiu no chão, limpando um corte na sobrancelha com um pedaço imundo de tecido.
— Isso foi uma estupidez — resmungou, a voz carregada de raiva. — Perdemos quatro homens para um bando de moleques e um monge. Devíamos ir embora enquanto ainda temos nossos ossos.
Darak, sentado em um tronco caído, examinava uma tala improvisada no braço, ajustando-a com movimentos curtos e irritados; a madeira rangia a cada tentativa de encaixe, e ele precisou morder o lábio para não soltar um grito.
— Halrek enlouqueceu. Não vale a pena — rosnou ele, finalmente erguendo o olhar. — Essa carroça não tem ouro suficiente para justificar o sangue que já derramamos.
Ao ouvir a menção de seu nome, Halrek aproximou-se, montado em seu cavalo preto. Seus olhos frios varreram os rostos irritados, demorando-se nos feridos, avaliando, calculando.
— Vocês pensam pequeno demais — disse ele, em tom controlado, sem elevar a voz.
Varric levantou-se de um salto, ainda segurando o pano ensanguentado, e deu um passo à frente, invadindo o espaço que Halrek mantinha com tanta precisão.
— Pequeno? Perdemos quatro irmãos nesta tolice!
— E vamos perder mais se continuarmos — acrescentou Darak, cerrando os dentes, a mão boa apertando o joelho com força.
Halrek desceu do cavalo com lentidão deliberada, os esporões ressoando no chão duro, cada passo marcando o ritmo de uma decisão que, para ele, já estava tomada muito antes daquela discussão começar; aproximou-se de Varric até ficar a um palmo de seu rosto, e não desviou o olhar em nenhum momento.
— Vocês não perceberam quem estavam atacando, não é? — perguntou, a voz baixa, firme o bastante para cortar qualquer réplica apressada.
Nenhum deles respondeu de imediato. Alguns trocaram olhares breves, outros evitaram encarar Halrek, e o desconforto se espalhou entre o grupo de forma quase tangível.
— Aquele homem na carroça… — continuou Halrek, mantendo o mesmo tom, mas agora com uma tensão contida que tornava cada palavra mais pesada. — O de cabelos castanhos compridos, ferido. Eu o reconheci.
Varric franziu o cenho, irritado, mas já menos seguro.
— E daí?
Halrek inclinou levemente a cabeça, como quem confirma uma suspeita já esperada.
— Ele é Aldren — disse, pausando apenas o suficiente para garantir que o nome fosse compreendido. — Um dos magos mais respeitados. Eu o vi em Varethia, de perto o bastante para não confundir.
Darak arregalou os olhos, esquecendo por um instante a dor no braço.
— Está brincando.
— Não brinco com essas coisas — respondeu Halrek, e um sorriso torto surgiu, sem qualquer traço de humor. — Um mago desse calibre vale mais do que qualquer carroça ou cavalo. Se o levarmos, podemos exigir um resgate ao Conselho de Magos. Ouro suficiente para comprar terras, homens, influência… o bastante para nunca mais precisarmos nos esconder em bosques como este.
O murmúrio entre os homens cresceu, primeiro contido, depois mais ousado; alguns se entreolhavam, outros já faziam contas em voz baixa, e até os mais feridos pareciam reconsiderar suas queixas diante da promessa de algo maior do que simples saque.
— E quanto ao resto? — perguntou Varric, ainda desconfiado, embora sua postura já não fosse a de antes.
Halrek ergueu a mão, interrompendo qualquer outra especulação antes que ganhasse forma.
— Não nos interessam — disse ele, direto. — Queremos Aldren. Matem todos os outros.
O peso da ordem permaneceu entre eles por alguns instantes, e então, um a um, os bandidos assentiram, alguns com convicção, outros por pura necessidade de seguir o grupo.
— Muito bem — concluiu Halrek, montando novamente com a mesma calma calculada. — Vamos caçá-los. Não como cães sem cabeça, mas como caçadores pacientes. Escolheremos o momento certo… e, quando ele vier, não haverá erro.
O grupo de Edric, mais adiante no vale, havia montado um pequeno acampamento provisório próximo a uma elevação rochosa, escolhida pela visibilidade que oferecia da trilha; a carroça estava avariada — uma roda quebrada e o eixo comprometido pelo esforço da fuga —, sustentada por pedras para evitar que cedesse de vez.
Dain estava ajoelhado ao lado da estrutura, martelando uma tábua improvisada para reforçar o eixo, ajustando a madeira com golpes firmes e testando a estabilidade a cada pausa.
Seris recolhia raízes comestíveis e enchia odres de água, movendo-se com atenção entre as pedras, enquanto Leif ajudava Elena a cuidar das feridas dos cavalos restantes, mantendo os animais imóveis enquanto ela trabalhava.
O clima era tenso, mas contido pelo ritmo das tarefas.
— Como está? — perguntou Leif, acompanhando os movimentos de Elena enquanto ela aplicava um ungüento no flanco ferido do cavalo.
— Vai viver — respondeu ela, sem desviar o olhar. — Mas precisaremos parar com frequência para deixá-los descansar.
Leif assentiu e percorreu o campo com os olhos.
— Não podemos ficar muito tempo aqui.
Perto deles, Dain praguejou baixo ao testar o eixo; a estrutura cedeu um pouco, e ele reforçou a peça com mais alguns golpes.
— Aguenta por enquanto — disse, sem se levantar. — Mas não vai suportar muito.
Reuniram-se junto à fogueira baixa que haviam conseguido manter. Edric continuava desacordado, envolto em cobertores, a respiração irregular, porém estável. Aldren, mais desperto, ainda fraco, acompanhava cada movimento do grupo, o rosto marcado pela dor.
— Temos de decidir — disse Dain, apoiando o martelo no chão. — Podemos seguir com a carroça assim, correndo o risco de quebrar de vez, ou esconder Edric e Aldren e buscar ajuda.
— Deixá-los? — Elena ergueu a voz, encarando-o.
— Não é uma boa opção — disse Leif, antes que ela prosseguisse. — Se formos atacados de novo, não conseguimos defendê-los nem carregá-los.
Seris voltou com os odres e olhou para as colinas ao redor.
— Se ficarmos, damos tempo para que nos encontrem. Precisamos seguir.
Ninguém respondeu de imediato. O estalar baixo da fogueira ocupou o espaço entre eles.
Aldren puxou o ar com esforço antes de falar.
— Sigam em frente. Não parem — disse, a voz rouca. — Cada hora aqui joga contra nós.
Dain franziu o cenho.
— E se a carroça não resistir?
— Então vocês dão um jeito — respondeu Aldren, sem hesitar. — Mas não parem.
Elena segurou a mão de Edric, apertando-a com cuidado, e então levantou o olhar.
— Então seguimos — disse. — Juntos.
Leif assentiu. Seris fez o mesmo. Dain demorou um instante, mas concordou.
A decisão estava tomada.
O Vale de Norwyn se estendia à frente, uma faixa dourada de terra batida sob o céu pálido da manhã. O grupo avançava lentamente, a carroça rangendo a cada solavanco, puxada agora com esforço dobrado. Leif havia cedido seu cavalo para ajudar no transporte dos feridos, e caminhava a pé ao lado da carroça, atento a cada irregularidade do terreno. Seris cavalgava alguns passos adiante, o corpo inclinado para frente, os olhos varrendo as encostas e as ondulações do vale com precisão constante. O cansaço marcava todos — nos ombros baixos, na respiração pesada dos cavalos, no ritmo mais lento do avanço.
— Está tudo bem aí atrás? — gritou Seris, sem reduzir o trote.
— Por enquanto — respondeu Dain, passando as costas da mão na testa suada. — Mas não gosto desse silêncio.
A resposta mal havia terminado quando o som surgiu, primeiro distante, depois claro: cascos contra pedra, em cadência irregular, descendo pela encosta. Logo vieram os gritos, duros, diretos:
— Entreguem o mago! Rendam-se e pouparemos suas vidas!
Seris já puxava as rédeas quando os viu. No alto de uma elevação baixa, Halrek surgiu à frente dos seus, espada em punho, postura firme sobre o cavalo escuro. Varric e Darak vinham logo atrás, e mais homens desciam com eles — meia dúzia, todos montados, espalhando-se ao descer para ganhar espaço.
Leif não hesitou.
— Dain! Encoste a carroça naquela rocha, agora!
Dain puxou as rédeas com força, desviando a carroça do centro da trilha e guiando-a em diagonal até a base da elevação rochosa. As rodas rangeram alto quando ele forçou o alinhamento, e a estrutura inclinou mais do que deveria antes de se firmar contra a pedra. Ele saltou do assento ainda em movimento, girando o corpo ao tocar o chão, já com o martelo em mãos.
— Em formação! — gritou. — Protejam a carroça a todo custo!
Leif avançou alguns passos à frente da posição, ajustando o terreno sob os pés antes de erguer a espada. Seris recuou rapidamente e desmontou em um movimento único, puxando a lança ao mesmo tempo em que deixava o cavalo atrás da linha, protegido pela carroça inclinada. Sem trocar palavras, os dois alinharam a frente estreita que restava aberta, cobrindo o único acesso direto.
Dentro da carroça, Elena puxou os cobertores mais para perto de Edric e Aldren, posicionando-se entre eles e a lateral exposta. Suas mãos tremiam, mas a adaga permaneceu firme.
Os bandidos não reduziram a velocidade.
A descida terminou em avanço direto, os cavalos abrindo o passo ao atingir o chão firme. Não houve nova tentativa de negociação. Um dos homens avançou mais à frente, lançando-se pela lateral da formação, tentando alcançar a carroça antes que a linha se fechasse completamente.
Leif interceptou primeiro. O choque veio seco, lâmina contra lâmina, e ele precisou recuar meio passo para absorver o impacto. Respondeu com um corte rápido, mas o golpe encontrou apenas o ar — o adversário já puxava as rédeas, tentando reposicionar.
— Fechem! — disse Leif, sem olhar para trás.
Seris avançou um passo, a lança descrevendo um arco curto que obrigou outro atacante a segurar o cavalo antes que se aproximasse demais. O espaço à frente da carroça se estreitou ainda mais, mas não o suficiente para impedir novas investidas.
Dain segurou a lateral, o martelo baixo, pronto para subir. Um segundo bandido tentou passar pela borda da carroça, forçando o cavalo entre a madeira e a rocha. O animal hesitou, travado pelo ângulo, e isso bastou. Dain investiu e golpeou de lado, atingindo o homem na altura do peito. O impacto o derrubou da sela, arrastando-o pela lateral antes de cair.
— Eles vão tentar de novo! — disse Dain, já voltando à posição.
E tentaram.
Outro atacou pela mesma abertura, mais cauteloso, inclinando o corpo para evitar um golpe direto. Leif desviou o ataque principal, mas não conseguiu impedir completamente a aproximação. O homem chegou perto demais da carroça, estendendo o braço para se agarrar à borda.
Elena reagiu antes de pensar. Avançou um passo dentro do espaço estreito e cravou a adaga na mão que se fechava sobre a madeira. O bandido gritou e recuou, perdendo o equilíbrio ao puxar o braço de volta, caindo para trás sob o próprio cavalo.
O som dos cascos se reorganizou ao redor deles. Os bandidos não recuavam — apenas ajustavam o ataque, procurando outro ponto de entrada.
A linha estava firme, mas sob pressão crescente.
Um bandido veio cavalgando pelo centro, espada erguida para um golpe direto. Leif ajustou a postura para receber o impacto, mas Dain chegou primeiro, avançando um passo e girando o corpo para baixo. O martelo desceu com força contra as patas dianteiras do cavalo, quebrando o avanço no mesmo instante. O animal perdeu o equilíbrio e tombou para frente, mas o golpe do cavaleiro já havia sido iniciado; a lâmina desviou no último momento e, em vez do pescoço, abriu um corte profundo no braço esquerdo de Leif.
Ele soltou um grito de dor e fúria, recuando um passo enquanto o sangue escorria pela manga. Não houve tempo para reagir além disso. O cavaleiro foi lançado da sela e atingiu o chão com violência, e o próprio cavalo caiu em seguida, arrastando tudo ao redor. O impacto empurrou Leif para trás, tirando-o da linha por um instante e abrindo um espaço perigoso à frente da carroça.
— Leif! — chamou Seris, avançando imediatamente para cobrir a abertura.
Ela girou a lança em um arco firme, obrigando dois bandidos que tentavam aproveitar a brecha a conter os cavalos. Um deles insistiu, inclinando-se para atacar por cima da haste, mas Seris recuou meio passo e estocou direto no peito do animal, forçando-o a desviar e quebrando o impulso do avanço.
Dain já estava em movimento outra vez, abandonando o cavalo caído e voltando à posição. Ele se colocou entre Leif e a frente da linha, o martelo erguido, impedindo qualquer pressão direta enquanto o companheiro recuperava o equilíbrio.
Leif apertou os dentes, firmando os pés no chão e reposicionando a espada com a mão direita. O braço ferido tremia, mas ele não recuou mais do que o necessário. Deu um passo à frente novamente, retomando a posição ao lado de Seris, o sangue agora escorrendo livremente até a mão.
— Ainda estou aqui — disse, seco.
Os bandidos reorganizaram o ataque mais uma vez, agora mais cautelosos, testando os limites da formação com investidas curtas e recuos rápidos. O espaço à frente da carroça permanecia estreito, mas cada abertura era pressionada com mais insistência.
Elena colocou a cabeça para fora da carroça, os cabelos grudados ao rosto pelo suor e pela poeira.
— Aldren pediu para se aproximarem da carroça!
Os três obedeceram imediatamente. Leif recuou primeiro, segurando a espada baixa enquanto desviava do cavalo caído que ainda se debatia no chão. Seris puxou a lança de volta e fechou o flanco ao lado da carroça inclinada. Dain foi o último a recuar, caminhando de costas para manter os bandidos afastados enquanto o martelo descrevia movimentos curtos diante dele.
Dentro da carroça, Aldren abriu lentamente os olhos. Seu rosto estava cinzento, marcado pelo esforço extremo, e sua respiração falhava entre uma palavra e outra. Mesmo assim, ergueu a mão com dificuldade e começou a murmurar palavras antigas, arrastadas, enquanto os dedos trêmulos traçavam símbolos no ar. Linhas douradas surgiram diante dele, instáveis no início, girando ao redor da carroça até se fecharem em uma barreira translúcida que envolveu toda a estrutura em um brilho pulsante.
Os bandidos já estavam perto demais para parar.
O primeiro cavalo atingiu o escudo e empinou violentamente, quase derrubando o cavaleiro. Outro veio logo atrás sem perceber a barreira e colidiu de frente contra a proteção dourada; o impacto lançou homem e animal para trás em meio a um estalo doloroso. Um terceiro tentou atravessar pelo lado e acabou prensado contra os corpos caídos, aumentando o caos diante da carroça.
Gritos explodiram ao mesmo tempo. Cavalos se chocavam, homens eram derrubados, poeira subia em nuvens espessas.
— Continuem pressionando! — rugiu Halrek, tentando reorganizar seus homens.
Os bandidos que vinham atrás abandonaram os cavalos e avançaram a pé. Lanças foram arremessadas contra o escudo, ricocheteando em clarões dourados. Varric e Darak chegaram logo depois, golpeando a barreira repetidamente com as espadas; faíscas explodiam no ar a cada impacto, e o brilho do escudo oscilava com mais violência a cada golpe.
Dentro da carroça, Aldren fechou os olhos com força. Sangue escorria lentamente de seu nariz, e sua mão começou a tremer ainda mais.
Leif observou a barreira pulsar diante deles.
— Isso não vai durar — disse, respirando pesado.
Aproveitando a breve proteção, Seris largou a lança e puxou o arco das costas. Apoiou-se na lateral da carroça e começou a disparar rapidamente contra os homens que pressionavam o escudo. A primeira flecha atingiu um bandido no ombro. A segunda acertou a coxa de outro que tentava atacar com uma lança curta. Os demais passaram a erguer escudos improvisados e recuar entre os cavalos caídos, dificultando a aproximação.
Por alguns instantes, conseguiram respirar.
Então o brilho dourado começou a enfraquecer.
As linhas do escudo oscilaram, perdendo forma, e um ruído agudo percorreu o ar. Aldren arqueou o corpo de dor dentro da carroça, apertando os dentes enquanto tentava sustentar a magia.
— Segurem… mais um pouco… — murmurou ele, quase sem voz.
Varric percebeu a instabilidade primeiro.
— Está cedendo! — gritou.
Halrek ergueu a espada.
— Agora!
Os bandidos avançaram em massa.
O escudo explodiu em fragmentos dourados que se dispersaram pelo vento, e os atacantes já estavam sobre eles no instante seguinte.
Leif atacou primeiro para interceptá-los. Sua espada encontrou a de um bandido em um choque violento, e ele girou o corpo logo depois para impedir que um segundo homem atravessasse a abertura diante da carroça. O braço ferido ardeu, e por um instante ele quase falhou no movimento, mas conseguiu manter a guarda.
Seris puxou a lança de volta do chão e entrou na luta ao lado dele, girando a arma em movimentos rápidos para impedir aproximações simultâneas. A ponta atingiu um homem no rosto, derrubando-o imediatamente, mas outro já ocupava o espaço vazio.
Dain segurava a lateral com golpes pesados de martelo, obrigando os inimigos a manter distância. Um atacante tentou passar pela estreita abertura entre a carroça e a rocha; Dain atingiu seu ombro com tanta força que o homem foi lançado contra a pedra antes de cair desacordado.
Mas a pressão aumentava.
Alguns bandidos começaram a contornar a formação e escalar a elevação rochosa, tentando alcançar a carroça por cima. Seris viu o movimento tarde demais.
— Pela rocha! — gritou.
Dentro da carroça, Elena apertou a adaga com as duas mãos. O coração martelava tão forte que ela mal conseguia ouvir os próprios pensamentos. Um vulto surgiu na borda superior da carroça quase no mesmo instante em que outro bandido conseguiu agarrar a lateral e se erguer.
Ela atacou por instinto. A lâmina cravou no ombro do homem antes que ele conseguisse entrar. O bandido gritou de dor e perdeu o equilíbrio, caindo para trás contra os outros que tentavam subir.
Lá fora, a luta mergulhava cada vez mais no caos. Gritos, relinchos e o som do aço batiam contra as pedras enquanto a linha defensiva começava, pouco a pouco, a ceder sob o peso dos ataques contínuos.
Foi então que, atravessando o caos da batalha, ecoou uma corneta. O som agudo reverberou pelas encostas do vale e se espalhou entre os gritos, os relinchos e o choque do aço.
Seris virou a cabeça imediatamente.
— Soldados! — gritou, surpresa.
Das colinas ao norte surgiram cavaleiros em formação cerrada, descendo a encosta em velocidade controlada. Estandartes azul-escuros tremulavam acima deles, marcados pelo sol dourado de oito raios sobre duas lâminas prateadas cruzadas — o brasão de Eldoria, carregado pelos seus soldados, As Lâminas do Sol.
À frente da formação vinha um homem montado em um cavalo castanho robusto. Sua armadura era simples, marcada pelo uso constante, mas bem cuidada. Aparentava ter cerca de quarenta anos, pele morena, olhos castanhos atentos e cabelos curtos da mesma cor, acompanhados por uma barba cerrada. Empunhava uma espada larga enquanto guiava os homens pela descida sem quebrar a formação.
— Pelo Rei de Eldoria! Protejam a carroça! — bradou o capitão, sua voz dominando o ambiente.
Era o Capitão Armand Grell, comandante de uma Companhia de Linha enviada para patrulhar aquela região do Vale de Norwyn.
— Dividam-se! Cerquem esses cães! — ordenou ele.
Os soldados obedeceram imediatamente. Parte da companhia desceu direto contra o centro dos bandidos, enquanto o restante abriu pelas laterais, fechando as rotas mais próximas de fuga.
O impacto da carga desmontou o ritmo do ataque quase instantaneamente.
Um dos bandidos mal teve tempo de virar o cavalo antes de ser atingido por uma lança no peito. Outro foi derrubado da sela por um golpe de escudo e esmagado pelos cavalos que vinham atrás. O som metálico das armaduras de Eldoria se misturou ao avanço coordenado da tropa, pressionando os homens de Halrek para trás.
Varric ainda tentou manter a ofensiva.
— Segurem a posição! — gritou ele, golpeando contra a lança de um soldado.
Mas a confiança que sustentava o ataque começou a ruir diante da visão dos estandartes avançando encosta abaixo e do número crescente de soldados.
Halrek percebeu antes dos demais.
— Recuar! — rugiu.
A ordem desmontou o resto da resistência. Os bandidos começaram a fugir em diferentes direções, alguns abandonando armas para ganhar velocidade, outros tentando escapar a cavalo pelas trilhas estreitas entre as colinas.
Os soldados de Eldoria partiram imediatamente em perseguição. Dois homens alcançaram um bandido antes mesmo que ele montasse novamente; outro foi derrubado por uma flecha disparada da encosta. Alguns conseguiram desaparecer entre as elevações do vale, mas deixaram para trás cavalos, armas e corpos espalhados pela trilha.
Pouco a pouco, o barulho da luta diminuiu.
A poeira ainda pairava no ar quando o Capitão Armand desmontou e caminhou até a carroça. Seus olhos percorreram rapidamente a cena: Leif segurando o braço ensanguentado, Dain apoiado no martelo para se manter de pé, Seris respirando com dificuldade ao lado da lança, Elena coberta de sangue e poeira dentro da carroça, protegendo Edric e Aldren.
A expressão do capitão endureceu ao notar o estado do mago.
— Estão seguros agora — disse ele, em tom mais calmo. — Ninguém tocará em vocês enquanto a Companhia de Linha estiver aqui.
Dain soltou o ar devagar antes de responder. O esforço para permanecer em pé já começava a aparecer em seu rosto.
— Agradecemos… — disse ele, inclinando a cabeça. — Sem vocês, não teríamos resistido.
Armand assentiu sem demonstrar orgulho pela afirmação. Apenas observou novamente os arredores, certificando-se de que não havia mais ameaça imediata.
Leif aproximou-se e apertou o antebraço do capitão em agradecimento sincero.
— Chegaram no momento certo.
— Por pouco — respondeu Armand.
Dentro da carroça, Elena finalmente abaixou a adaga. Seus dedos tremiam tanto que ela precisou largar a arma ao lado dos cobertores antes de segurar a mão de Edric outra vez. Então começou a chorar baixo, exausta demais para conter o alívio.
Armand voltou o olhar para ela e depois para Aldren.
— Temos um posto avançado a algumas horas daqui — disse. — Há curandeiros, abrigo e homens suficientes para manter a estrada segura. Vocês irão conosco.
Seris recolheu lentamente o arco do chão enquanto observava os soldados perseguindo os últimos fugitivos pelas colinas distantes.
A luz da manhã avançava sobre Norwyn, dourando a poeira suspensa no ar e os estandartes das Lâminas do Sol enquanto o grupo tentava, aos poucos, recuperar o fôlego.