O Confronto Inevitável
Não muito longe do grupo, depois da fuga, escondidos entre as árvores ralas de um bosque à margem do vale, um punhado de homens se reuniu em silêncio contido, como predadores que reconhecem uns nos outros a mesma fome. A luz do fim de tarde atravessava os galhos secos em feixes irregulares, recortando sombras duras sobre os rostos marcados, sobre as mãos calejadas que repousavam próximas às armas. O ar carregava o cheiro de terra quente e couro gasto.
— Eu disse que eles eram bons — murmurou Varric, um dos bandidos, inclinando levemente a cabeça enquanto observava a trilha ao longe. Seus olhos estreitos, vivos como os de uma raposa, refletiam mais cálculo do que admiração.
— Não tão bons quanto nós — rosnou Darak, sem sequer olhar para ele. Seu corpo parecia talhado para a violência, ombros largos sustentando uma postura sempre à beira do confronto. As cicatrizes em seu rosto não eram apenas marcas; eram lembranças de tudo que já sobrevivera — e de tudo que ainda estava disposto a fazer.
À frente dos dois, montado em um cavalo negro de músculos tensos, o líder permanecia imóvel. Halrek não precisava erguer a voz para ser ouvido. Havia nele uma quietude perigosa, daquelas que precedem o golpe e não o seguem. Seus olhos percorriam o vale com precisão paciente, como se cada detalhe — cada curva da trilha, cada elevação do terreno — já estivesse sendo reorganizado em sua mente.
— São poucos. Estão cansados e sobrecarregados — disse, por fim, com uma calma que tornava suas palavras ainda mais incisivas. — Mas enfrentaram três dos nossos sem hesitar. Não subestimem.
O cavalo sob ele soltou um sopro curto, inquieto, como se respondesse à mesma leitura do ambiente. Halrek levou a mão às rédeas sem desviar o olhar da distância, ajustando-as com um gesto mínimo.
— Reunimos mais cinco homens — acrescentou Darak, apontando com o queixo para o restante do grupo. Alguns montavam, outros seguravam seus cavalos pelas rédeas, todos atentos. — Todos montados.
— Bom — respondeu Halrek, e um sorriso frio, quase imperceptível, curvou-lhe os lábios. — Iremos atrás deles ao anoitecer. Deixem-nos correr um pouco mais. Deixem o medo fazer o trabalho que a lâmina não precisa fazer duas vezes.
As palavras se assentaram entre os homens com naturalidade perturbadora. Não havia dúvida nelas, nem pressa — apenas a certeza de quem já decidiu o desfecho antes mesmo de iniciar a perseguição.
Varric riu baixo, puxando a lâmina curta do cinto e passando o polegar ao longo do fio, como se testasse uma promessa.
— Não vai sobrar muito deles quando terminarmos.
Halrek não respondeu de imediato. Seus olhos ainda estavam fixos no vale.
— Não precisam sobrar — disse enfim, em tom quase distraído. — Só precisamos do que carregam.
O vento mudou de direção, descendo do vale e atravessando o bosque com um sussurro seco. Por um instante, as folhas ralas tremeram em uníssono, e o som se espalhou como um aviso que ninguém ali estava disposto a ouvir. Halrek ergueu ligeiramente o queixo, inspirando o ar, como se tentasse capturar algum vestígio distante — um erro, um rastro, um sinal de fraqueza.
Nada escapava por muito tempo.
Com um movimento breve, ele virou o cavalo, afastando-se da borda do bosque. Os outros começaram a segui-lo sem necessidade de ordem, ajustando selas, verificando armas, preparando-se não para uma luta incerta, mas para uma caçada já assumida como inevitável.
Ao longe, no vale, o caminho que o grupo percorria permanecia silencioso e aparentemente vazio. Mas a distância entre caçador e presa já não era mais de ignorância — era apenas de tempo.
Enquanto isso, no acampamento improvisado do grupo de Edric, a tensão era palpável. Haviam se instalado em uma depressão natural, cercados por pedras altas que ofereciam alguma proteção, embora também limitassem a visão do entorno.
Dain puxou Leif e Seris para uma reunião rápida, alguns passos afastados, enquanto Elena tratava dos feridos com gestos firmes, apesar do cansaço.
— Não gosto disso — disse Dain em voz baixa. — Nem um pouco.
— Estão nos seguindo — afirmou Seris, sem rodeios.
Leif assentiu, atento ao vale além das pedras.
— E ouvi cavalos ao longe. Estão se aproximando.
Dain passou a mão pela cabeça, pensativo, os olhos percorrendo o terreno como se medisse suas opções.
— Precisamos decidir. Apertamos o passo e arriscamos forçar demais os cavalos e a carroça… ou montamos uma emboscada.
Seris inclinou a cabeça, breve.
— Com Edric e Aldren desse jeito? Uma luta seria suicídio.
Leif, de olhos sombrios, completou:
— Então corremos.
Elena se aproximou, tendo ouvido o suficiente. Seu rosto estava pálido, mas determinado.
— Seja o que for, devemos sair daqui antes do amanhecer.
Todos concordaram em silêncio, sem necessidade de mais palavras.
A noite foi breve. Ao primeiro sinal de luz no leste, desmontaram o acampamento sem hesitação, cada gesto guiado pela urgência. Dain tomou as rédeas da carroça com mais força do que antes, conduzindo-a por terrenos irregulares, enquanto Leif e Seris cavalgavam em círculos largos, atentos a qualquer movimento além das ondulações do vale.
Mas o avanço não era tão rápido quanto gostariam. As rodas da carroça rangiam a cada desnível, e os cavalos que a puxavam já não mantinham o mesmo ritmo, o cansaço evidente no esforço de cada passada. Edric permanecia imóvel, entregue a um estado de inconsciência profunda, alheio ao que acontecia ao redor. Aldren, embora desperto, mal conseguia se sustentar, o corpo enfraquecido limitando qualquer tentativa de ajudar.
O tempo passou arrastado, sob um sol que subia sem misericórdia. O calor começou a pesar sobre todos, tornando o ar mais denso, mais difícil de respirar. Foi então que Seris surgiu novamente no horizonte, galopando de volta com velocidade controlada, mas sem disfarçar a tensão.
Ela puxou as rédeas ao se aproximar, o olhar firme.
— Eles estão próximos. Muito próximos.
— Quantos? — perguntou Dain, sem diminuir o ritmo.
— Pelo menos oito — respondeu ela. — E todos montados.
Leif emparelhou seu cavalo ao lado dela, o rosto fechado.
— Então não vamos conseguir despistá-los.
Dain lançou um olhar rápido para a carroça, para os corpos frágeis que carregavam, e depois de volta para a estrada à frente.
— Sem chance de abandonarmos a carroça — disse, mais para si mesmo do que para os outros.
Seris apertou o punho, os dedos fechando com decisão.
— Teremos que lutar.
Leif assentiu, a expressão sombria, mas resoluta.
— E fazer com que cada um deles pague caro.
Por um instante, ninguém disse mais nada. Apenas o som da carroça, dos cascos e do vento seco acompanhava o grupo enquanto seguiam adiante — agora não mais tentando escapar, mas se preparando, silenciosamente, para o inevitável.
Halrek observava enquanto o grupo tentava desesperadamente manter distância. Seu olhar calculista acompanhava o movimento da carroça, os cavalos fatigados, a tensão evidente nos rostos, como quem mede não apenas a força do inimigo, mas o momento exato de quebrá-la.
— Agora — disse ele.
Os bandidos avançaram.
Os cascos martelaram a terra com força, levantando poeira seca, e os gritos selvagens cortaram o ar como lâminas. Seris e Leif giraram seus cavalos quase ao mesmo tempo, fechando a frente da carroça em um arco defensivo. Elena, trêmula, puxou a adaga — pequena demais para aquele confronto, mas firme em sua mão.
— Protejam a carroça! — gritou Dain, posicionando-se ao lado com um bastão reforçado.
O impacto veio rápido.
Leif travou o primeiro golpe com a espada, desviando o ataque de um cavaleiro e, no mesmo movimento, puxando a lâmina em um corte ascendente que abriu o peito do inimigo. O homem caiu do cavalo antes mesmo de gritar, arrastando-se pela poeira até ficar imóvel.
Seris recebeu o golpe de lança de Darak, aparando com precisão. Girou o corpo no assento e respondeu com uma estocada curta, atingindo o ombro do atacante. O bandido perdeu o equilíbrio e despencou, sendo pisoteado pelo próprio cavalo que disparou descontrolado.
Mas os demais já estavam sobre eles.
Um dos atacantes avançou por trás de Leif, brandindo um machado curto. Leif percebeu tarde demais — virou-se apenas o suficiente para evitar o golpe completo, mas a lâmina ainda raspou sua testa, abrindo um corte acima da sobrancelha. O sangue escorreu imediatamente, turvando parte de sua visão. Ele recuou um passo, limpando o rosto com o antebraço, e respondeu com violência contida: avançou, desviou do segundo golpe do mesmo homem e cravou a espada abaixo das costelas, empurrando até sentir o corpo ceder. O bandido tombou com um som seco.
— À esquerda! — gritou ele, já reposicionando.
Seris viu o movimento antes que ele se completasse. Um dos bandidos avançava pela lateral, tentando contornar a formação e alcançar a carroça. Sem hesitar, ela girou o corpo na sela e impulsionou a lança em linha reta. A ponta atravessou a garganta do homem com precisão brutal, interrompendo o ataque no mesmo instante. O bandido levou as mãos ao pescoço, os olhos arregalados, antes de cair do cavalo sem um som. Seris puxou a arma de volta com um movimento seco, já buscando o próximo inimigo.
Varric surgiu então, sorrindo como um lobo, lançando uma rede em direção a Seris. Ela puxou as rédeas e inclinou o corpo, escapando por pouco, mas o movimento a tirou da posição por um instante — o suficiente para abrir uma brecha.
Halrek aproveitou.
Do alto de seu cavalo negro, avançou direto sobre Dain. O choque foi brutal. A espada de Halrek desceu com força, e Dain ergueu o bastão para bloquear — a madeira reforçada estalou sob o impacto, partindo-se ao meio. A força o lançou de joelhos, o ar fugindo de seus pulmões.
Sem hesitar, Halrek seguiu adiante, contornando Dain como se ele já não fosse mais obstáculo. Seu cavalo alcançou a lateral da carroça em dois passos, e ele se inclinou para dentro, tentando forçar a entrada. Elena recuou instintivamente, mas não fugiu — ergueu a adaga e desferiu estocadas rápidas, desordenadas, obrigando Halrek a conter o avanço por um instante. Ele respondeu com frieza, tentando empurrar a lâmina pela abertura estreita da carroça, buscando alcançar o interior sem se expor completamente. O aço passou a poucos centímetros dela.
Então a carroça sofreu um solavanco violento ao atingir um buraco oculto na trilha. O impacto quebrou o alinhamento do cavalo de Halrek, forçando-o a puxar as rédeas para não perder o controle.
Ele avaliou o momento por um instante — e recuou.
A estrutura inclinou perigosamente, sacudindo Edric e Aldren. Um dos cavalos, atingido por uma flecha no flanco, relinchou em agonia e caiu, puxando parte da carroça para o lado.
— Não! — gritou Elena, tentando conter o colapso com as próprias mãos.
O combate se fragmentou em caos.
Um bandido avançou pela lateral da carroça, tentando alcançar os feridos. Dain, ainda de joelhos, reagiu por instinto — largou o bastão quebrado e puxou o homem pela perna ao passar, derrubando-o com força. Antes que pudesse se levantar, Dain agarrou uma pedra solta e a cravou contra o rosto do atacante duas vezes, até que ele não se movesse mais.
Leif, com o sangue escorrendo pela face, se colocou à frente da carroça, agora a pé, assumindo posição firme. Seris retornou ao seu lado, fechando o flanco oposto. Sem trocar palavras, os dois ajustaram a posição — não mais tentando avançar, mas formando uma linha estreita entre os bandidos e os feridos.
— Aqui! — disse Seris, firme.
Eles recuaram um passo coordenado, forçando os inimigos a se comprimirem no espaço irregular da trilha. Um cavalo hesitou, outro se chocou contra ele, quebrando o ímpeto da investida. Leif aproveitou a desordem e atacou o mais próximo, obrigando os demais a recuarem para não se atingirem entre si.
A formação improvisada funcionou.
Sem espaço para cercar, e com quatro homens mortos, os bandidos perderam o ritmo inicial. Varric tentou avançar novamente, mas hesitou ao ver a posição fechada — não era mais uma presa fácil.
Halrek observou por um instante, avaliando. Então ergueu a mão.
— Recuem.
Darak, ferido no ombro, tomou o cavalo de um dos mortos e puxou as rédeas com dificuldade. Varric recuou por último, ainda sorrindo, mas agora com cautela no olhar.
— Ainda não terminou! — rugiu Halrek, antes de virar o cavalo e desaparecer entre a poeira levantada pela retirada.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
O grupo estava exausto. Um dos cavalos jazia imóvel, a carroça inclinada, danificada, mas ainda recuperável. Leif levou a mão à testa, sentindo o sangue ainda quente sob os dedos.
Dain se levantou com esforço, limpando o próprio rosto com as costas da mão.
— Eles voltarão. E em maior número.
Elena olhou para Edric, completamente inconsciente, alheio a tudo, e depois para Aldren, que agora sangrava de um ferimento que reabriu.
Precisariam encontrar Myrddren antes que o tempo se esgotasse.