Um Refúgio entre Soldados
O posto avançado da Companhia de Linha havia sido erguido no sopé de uma colina protegida, onde o vento chegava mais brando e a vista do Vale de Norwyn se abria ao longe em extensões acinzentadas pelo cair da tarde. As bandeiras de Eldoria tremulavam acima das tendas alinhadas, e o movimento disciplinado dos soldados contrastava com o estado em que o grupo chegara. Homens carregavam caixas de suprimentos entre as fogueiras, cavalos descansavam presos próximos às carroças militares, e o cheiro de couro molhado, fumaça e caldo quente espalhava-se pelo acampamento.
O grupo de Edric foi recebido com respeito e cautela. Não havia hostilidade nos olhares dos soldados, apenas a curiosidade contida de quem percebia estar diante de sobreviventes de algo grave demais para ser explicado rapidamente. Foram conduzidos até uma tenda maior, reservada aos feridos, onde curandeiros militares imediatamente começaram o atendimento. Ferimentos foram limpos e enfaixados — principalmente o braço de Leif —, roupas rasgadas deram lugar a mantos simples de lã áspera, e tigelas de barro cheias de sopa espessa de raízes e carne salgada foram distribuídas entre eles.
Era a primeira refeição decente em muitos dias. O calor da comida devolveu lentamente alguma cor aos rostos cansados, e até Seris, sempre vigilante, relaxou um pouco os ombros enquanto segurava a tigela entre as mãos aquecidas. Elena permanecia próxima de Edric o tempo todo, observando cada mudança em sua respiração com atenção ansiosa. Aldren, ainda abatido, conseguia ao menos sentar-se apoiado sobre cobertores dobrados.
Ao final da tarde, Capitão Armand Grell entrou na tenda.
Ele retirou o elmo, revelando um rosto sério, marcado pelo tempo e pelas campanhas militares, mas sem dureza excessiva. Havia honestidade em seus olhos e uma tranquilidade rara em homens acostumados à guerra. Aproximou-se sem pressa, respeitando o estado dos feridos e observando cada um deles antes de falar.
— Não nos apresentamos apropriadamente. Eu me chamo Armand Grell. Sou capitão da Companhia de Linha do Vale de Norwyn.
Todos se apresentaram, com exceção de Aldren, que permaneceu calado.
— Sei que passaram por muita coisa — disse Armand, em tom firme, porém tranquilo. — Não pretendo forçar respostas… mas preciso saber: quem são vocês? E por que tantos homens arriscariam a vida para capturá-los?
O grupo trocou olhares incertos.
Dain pigarreou, mas hesitou.
Leif apertou os punhos, inseguro.
Elena, ainda com os olhos vermelhos do choro, mordeu o lábio inferior, sem saber se deveria falar.
Percebendo a hesitação, Armand voltou os olhos para Aldren antes de continuar:
— Conheço esse homem — disse ele, inclinando discretamente a cabeça na direção do velho guardião. — Vi Aldren anos atrás, em Althoria, no capítulo do Conselho de Magos. — Seu tom carregava respeito genuíno. — Se ele confia em vocês, então podem confiar em mim.
Aldren reuniu forças para fazer um pequeno aceno de cabeça.
O gesto discreto bastou.
Dain soltou o ar lentamente antes de tomar a palavra.
— Vamos contar tudo — disse, agora com firmeza.
E assim fizeram.
Dain, Seris e Elena se revezaram na narrativa dos acontecimentos. Relataram a chegada ao Mosteiro de Caelum, a descoberta dos selos antigos e o despertar acidental de algo sombrio sob as montanhas — sem esconder a responsabilidade de Edric naquilo. Falaram sobre Caelavar, sobre o terror que sentiram diante daquela presença, e sobre como Aldren os salvara no último instante. Contaram também a jornada até a Cúspide de Naerath, o treinamento brutal de Edric, a traição de Malagar e a batalha desesperada em Sinevrus, que quase lhes custara a vida.
Armand ouviu tudo sem interromper. Manteve os braços cruzados sobre o peito durante boa parte do relato, mas sua expressão mudava pouco a pouco conforme a gravidade da história se revelava. Em alguns momentos, seus olhos desviavam brevemente para Edric desacordado, como se tentasse conciliar a figura frágil diante dele com o peso das coisas que ouvira.
Quando terminaram, nenhum deles falou por alguns instantes. Do lado de fora, o som abafado das fogueiras e das patrulhas noturnas atravessava o tecido da tenda.
Por fim, Armand quebrou o silêncio.
— Vocês carregam um fardo pesado. — Sua voz saiu mais baixa do que antes. — Se ao menos metade disso for verdade… então Eldoria corre um perigo maior do que nossas patrulhas jamais imaginaram.
Dain assentiu lentamente. O cansaço em seu rosto já não vinha apenas da viagem, mas da responsabilidade que carregava desde Caelum.
— Precisamos encontrar um druida chamado Myrddren em Edevane — disse ele. — Somente ele poderá salvar Edric completamente.
Armand refletiu por um momento antes de se aproximar da mesa improvisada no centro da tenda. Afastou alguns pergaminhos militares e abriu um mapa desgastado da região.
— O Bosque de Caldarion fica a dois dias de marcha daqui. Talvez um pouco mais, dependendo do estado de vocês.
Ele apontou para uma rota marcada entre colinas e antigas trilhas florestais.
— Nossa companhia seguirá para Althoria escoltando os prisioneiros capturados hoje. Mas compartilharemos boa parte do caminho.
Então ergueu os olhos para Dain.
— Acompanharemos vocês até a entrada do Bosque. Depois disso… estarão por conta própria.
Um alívio quase palpável atravessou o grupo.
Elena sorriu brevemente pela primeira vez desde que Edric partira com Vaelar.
Leif soltou um murmúrio baixo de agradecimento.
Seris apenas assentiu com firmeza.
Dain levantou-se com dificuldade e estendeu a mão ao capitão.
— Obrigado, Armand. Você nos salvou hoje. E está nos salvando novamente.
Armand apertou sua mão com força.
— Salvamos eldorianos. É o que fazemos.
A noite caiu sobre o acampamento enquanto as fogueiras militares iluminavam as tendas espalhadas pelo sopé da colina. Pela primeira vez em muito tempo, o grupo conseguiu descansar sem precisar vigiar constantemente as sombras ao redor. Ainda havia medo, incerteza e perguntas demais sem resposta, mas, ao menos naquela noite, existia algo que há dias lhes faltava: a sensação temporária de estarem seguros.
O dia nasceu pálido sobre o Vale de Norwyn, tingindo as colinas com tons suaves de cinza e dourado. O grupo de Edric, escoltado pela Companhia de Linha, seguia viagem pela trilha de terra batida em direção ao leste. O som ritmado dos cascos e o ranger constante da carroça preenchiam o ar, misturados ao sopro frio do vento e ao canto distante dos pássaros escondidos entre os campos e bosques esparsos.
A formação seguia simples e cuidadosa: soldados à frente e nas laterais, atentos a qualquer movimento suspeito, enquanto a carroça permanecia ao centro sob vigilância redobrada. Edric continuava desacordado, coberto por mantos grossos para protegê-lo do frio da manhã, e Elena mantinha-se próxima dele sempre que podia, subindo na carroça de tempos em tempos apenas para verificar sua respiração.
As primeiras horas transcorreram em tranquilidade. Não havia tensão imediata pairando sobre a estrada, e isso permitiu que o cansaço acumulado começasse lentamente a abandonar os ombros do grupo.
Foi então que Capitão Armand aproximou-se de Dain, caminhando ao lado da carroça.
— A estrada é longa — comentou ele, oferecendo um breve sorriso. — Conversar ajuda o tempo a passar mais rápido.
Dain soltou um suspiro cansado enquanto passava a mão pela barba curta.
— Agora que as coisas se acalmaram… existe algo na minha cabeça que não consigo afastar.
— Talvez eu possa ajudar, se quiser contar.
Dain demorou alguns passos antes de responder. Seus olhos permaneciam fixos na estrada à frente.
— Às vezes me pergunto se estou à altura disso tudo. — Sua voz saiu baixa, carregada de honestidade. — Nunca escolhi liderar ninguém. Mas, de alguma forma… todos acabam olhando para mim.
Armand assentiu sem julgamento.
— A liderança raramente é escolhida, Dain. Na maioria das vezes, ela nasce quando ninguém mais consegue permanecer firme. — Ele ajeitou o manto sobre os ombros antes de continuar. — O importante não é o título, nem a autoridade. É a capacidade de continuar avançando quando os outros começam a vacilar.
Dain franziu a testa, refletindo sobre aquelas palavras.
— E se eu falhar?
Armand sorriu levemente.
— Então você se levanta e continua. É isso que diferencia um verdadeiro líder dos demais. Não é nunca cair… é continuar mesmo depois da queda.
Dain permaneceu calado depois disso, absorvendo as palavras enquanto observava a estrada serpenteando entre as colinas do vale.
Mais tarde, Elena caminhava próxima da carroça, acariciando distraidamente a madeira desgastada da lateral do veículo. O vento fazia alguns fios de seu cabelo dançarem diante do rosto, mas ela mal percebia. Seus pensamentos permaneciam presos em Edric e em tudo o que haviam atravessado desde Caelum.
Armand aproximou-se novamente, mantendo o mesmo jeito tranquilo.
— Você está muito quieta — comentou.
Elena hesitou antes de responder.
— Só estou pensando…
Ela apertou as mãos uma contra a outra.
— Todo mundo parece ter alguma habilidade importante para proteger Edric. Dain sabe lutar, Seris consegue rastrear qualquer coisa, Leif enfrenta homens armados sem hesitar… e eu… — Ela baixou os olhos. — Eu só atrapalho.
Armand caminhou alguns passos antes de responder, como quem escolhia cuidadosamente as palavras.
— Todo mundo tem uma importância neste mundo, Elena — disse ele, a voz baixa, quase um conselho sussurrado. — Às vezes, é nas horas mais sombrias que descobrimos a nossa verdadeira força.
Ela ergueu os olhos para ele.
— E se eu nunca descobrir qual é a minha?
— Você encontrará. E talvez descubra que já é mais importante para seus amigos do que imagina.
Elena permaneceu em dúvida, e Armand soltou uma breve respiração pelo nariz antes de perguntar:
— Posso dar minha opinião sincera?
— Claro.
— De todos vocês… acho que você é a pessoa mais importante para aquele garoto ferido.
Elena corou imediatamente.
— Por que diria isso?
Armand lançou um olhar rápido para a carroça antes de responder:
— Porque, não importa o que tenha acontecido, você nunca saiu do lado dele. Nem nos piores momentos. — Sua voz manteve-se calma. — Pelo que observei, a segurança dele importa mais para você do que a própria vida.
Elena tentou responder, mas nenhuma palavra saiu. Pela primeira vez desde que deixara o Mostério de Caelum, alguém havia colocado em voz alta algo que ela própria evitava admitir.
Armand voltou os olhos para a estrada.
— Então não se preocupe tanto em descobrir qual é o seu lugar no mundo. Às vezes, você já significa esse lugar para outra pessoa… sem perceber.
Elena abriu um pequeno sorriso sincero, sentindo parte do peso em seu peito diminuir.
— Obrigada, Armand. Você melhorou muito meu dia.
O capitão apenas inclinou a cabeça em resposta antes de se afastar.
No final da manhã, Armand aproximou-se de Seris, que cavalgava mais atrás, mantendo atenção constante na estrada que deixavam para trás. Seus olhos examinavam trilhas laterais, marcas na terra e o movimento distante da vegetação, hábito adquirido após anos vivendo de caça nas regiões selvagens.
— Você cavalga como alguém acostumada às estradas — comentou Armand.
Seris deu de ombros, sem perder a atenção.
— Cresci nos bosques próximos ao Mostério de Caelum. Meu povo vive da caça e da vigilância. Aprendemos cedo a ouvir o vento, rastrear pegadas e perceber quando algo está errado.
Armand sorriu de maneira nostálgica.
— Quando eu era garoto, queria ser caçador. Passava os dias correndo pelos campos imaginando que seguia rastros de criaturas gigantescas.
Isso arrancou de Seris um quase sorriso.
— E o que o fez mudar?
— A vida. — Armand soltou uma pequena risada. — E a necessidade. Às vezes o reino precisa mais de soldados do que de caçadores.
— Um trabalho mais difícil.
— Nem sempre. Em tempos de paz, boa parte da vida militar é apenas patrulha, disciplina e estrada. O problema é que a paz nunca dura muito.
O olhar de Seris endureceu discretamente.
— Vai durar menos ainda agora… com Caelavar.
Armand ficou sério outra vez.
— Imagino que sim. Por isso precisaremos estar preparados.
Seris assentiu em silêncio, mas havia menos tensão em sua expressão ao final daquela conversa.
Durante a tarde, quando as sombras começaram a se alongar sobre a estrada, Armand aproximou-se de Leif, que ajudava a conduzir um dos cavalos de carga ao lado da carroça.
— Você segura essa espada com firmeza — observou o capitão. — E sem vaidade. Isso é raro em homens jovens. Onde aprendeu a lutar?
Leif ruborizou quase imediatamente.
— Eu… sempre quis ser soldado. Talvez um dia até subir de patente… ser alguém importante. Treinei em Valderon, onde nasci. Mas foi viajando com o grupo de Edric que comecei a enfrentar perigos de verdade.
Armand parou ao lado dele e apoiou uma mão firme sobre seu ombro.
— Sonhos assim moldam homens de valor. Me contaram como você defendeu a carroça no ataque de ontem. Disseram que lutou muito bem.
— Estão exagerando — respondeu Leif, ainda mais vermelho diante do elogio.
Armand soltou uma curta risada.
— Humildade é uma virtude. Mas falsa modéstia pode arruinar um homem tanto quanto o orgulho. Quando fizer algo digno, permita-se reconhecer isso.
Leif assentiu, absorvendo aquelas palavras com seriedade.
— Quando essa missão terminar — continuou Armand —, deveria ir para a capital, Althoria. O Exército Real sempre precisa de homens corajosos. Especialmente se tudo o que vocês disseram sobre Caelavar for verdade.
Leif ergueu os olhos para ele, cheio de expectativa.
— Você acha… que eu teria uma chance?
Armand sorriu.
— Eu apostaria em você.
Leif endireitou a postura depois disso. Pela primeira vez em muitos dias, seu sonho deixou de parecer algo distante demais para alcançar.
A caravana continuou avançando ao longo da tarde, deixando para trás as regiões mais abertas do Vale de Norwyn. Aos poucos, os campos ondulados davam lugar a terras mais irregulares e selvagens, anunciando a aproximação do lendário Bosque de Caldarion.
As conversas simples, os conselhos trocados ao longo da estrada e a amizade que começava a surgir entre o grupo e Armand funcionavam como pequenas brasas contra a escuridão crescente ao redor deles, preservando a esperança em um mundo que parecia cada vez mais próximo das trevas.