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A Fuga da Cúspide

Em Villard, o frio não chegava como uma mudança súbita, mas como uma presença que se infiltrava aos poucos, tomando conta das coisas com paciência implacável. As casas, erguidas em madeira escurecida pelo tempo, rangiam sob a ação constante dos ventos que percorriam as Colinas de Vaerlyn sem encontrar barreiras reais. Ao redor da pequena vila, campos estreitos e pedregosos se estendiam em faixas irregulares, difíceis de cultivar, exigindo esforço contínuo de quem dependia deles para sobreviver. Nada ali era abundante, e ainda assim tudo persistia — sustentado por uma rotina silenciosa, repetida dia após dia por uma população acostumada a resistir mais do que a esperar.

Os invernos eram longos, frequentemente mais duros do que o necessário, e mesmo fora deles o ar carregava um frio constante que nunca parecia se dissipar por completo. As notícias do restante do reino chegavam tarde, trazidas por viajantes ocasionais ou por rumores que já haviam perdido parte de sua forma original. Em Villard, o tempo seguia um ritmo próprio, indiferente ao que acontecia além de suas colinas.

Naquele período, porém, algo havia atravessado as distâncias e alcançado até mesmo aquele lugar esquecido.

A doença chegou sem anúncio, espalhando-se de casa em casa com uma rapidez que ninguém soube explicar. Primeiro vieram os casos isolados, tratados como azares inevitáveis do inverno. Depois, os leitos ocupados, os silêncios prolongados, as portas que deixaram de se abrir. Em pouco tempo, já não havia família que não conhecesse o peso da febre ou o medo de vê-la se instalar.

Na pequena casa de madeira próxima à borda dos campos, Edric, com apenas cinco anos, estava deitado imóvel sobre a cama estreita, pequeno demais para ocupar todo o espaço que lhe fora preparado, mas tomado por um calor que parecia exceder os limites de seu próprio corpo.

— Fique comigo, meu filho… — murmurou Eleanora, sua mãe, inclinando-se sobre ele. Seus cabelos castanhos claros caíam soltos sobre os ombros, levemente desalinhados pelo cansaço, enquanto os olhos da mesma cor, atentos e inquietos, percorriam o rosto do menino procurando ali qualquer sinal de melhora.

A bacia repousava ao lado da cama, apoiada sobre um banco baixo. A água, que já não estava tão fria quanto antes, ainda era tudo o que ela tinha para tentar aliviar o calor que consumia o menino. Eleanora mergulhou o pano, girando-o entre os dedos antes de erguê-lo novamente. Espremeu-o com cuidado, deixando que o excesso escorresse de volta para a bacia, e então passou o tecido úmido pela testa de Edric, em movimentos lentos e constantes.

Ele não reagiu.

— Está quente demais… — sussurrou ela, mais para si mesma do que para qualquer outro.

Sua mão pousou brevemente sobre o rosto do filho. O calor era intenso, quase insuportável, e parecia não ceder, apesar de tudo o que ela fazia. Eleanora respirou fundo, contendo a própria inquietação, e voltou a molhar o pano, repetindo o gesto com uma disciplina silenciosa, a repetição, por si só, uma forma de manter o desespero afastado.

— Você vai melhorar — disse, com firmeza baixa, inclinando-se mais uma vez. — Ouviu, Edric? Vai passar.

A resposta não veio. Apenas o som irregular da respiração do menino, preenchendo o espaço entre uma palavra e outra.

Eleanora voltou a pressionar o pano contra a testa de Edric, segurando-o ali por alguns segundos a mais, como se pudesse, de alguma forma, puxar o calor para si.

— Fique comigo — repetiu, quase em um sopro.

E, sem outra opção, continuou.

A porta da casa se escancarou com um estrondo seco, batendo contra a parede. Eleanora sobressaltou-se, erguendo o olhar de imediato, ainda com o pano úmido entre os dedos.

Thomas, pai de Edric, surgiu na entrada, curvado, as mãos apoiadas nos joelhos enquanto tentava recuperar o fôlego. Seus cabelos escuros estavam desalinhados pela corrida, e os olhos castanhos, ainda presos à urgência do momento, percorriam o interior da casa com inquietação. Seu peito subia e descia com violência, e o ar saía em rajadas curtas. Havia poeira presa às botas, o manto desalinhado, e o rosto marcado por uma tensão que não vinha apenas do cansaço.

— Thomas…? — chamou Eleanora, a voz baixa, mas tensa.

Ele ergueu a cabeça aos poucos, inspirando fundo antes de conseguir se endireitar. Passou a mão pelo rosto, e então falou, ainda entrecortado:

— Há um mago vindo para a vila… — fez uma pausa breve, puxando mais ar. — Todo mundo está falando disso. Dizem que ele pode curar essa doença. Já fez isso em outras vilas.

Eleanora permaneceu imóvel, absorvendo cada palavra.

— Um mago…? — repetiu, quase em um sussurro.

— Sim — confirmou Thomas, agora mais firme. — Já estão se reunindo lá fora. Tem gente formando fila desde cedo. Ele vai ter muito trabalho aqui… — seus olhos desviaram por um momento para a cama, onde Edric permanecia imóvel. — Mas… talvez… talvez ele consiga atender o nosso filho.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado. Eleanora voltou o olhar para Edric, observando o rosto pequeno, marcado pela febre persistente. Sua mão, ainda úmida, repousou novamente sobre a testa dele.

— Vou ficar lá — continuou Thomas, já se movendo. — Nem que seja o dia inteiro. Nem que eu tenha que passar a noite.

Eleanora respirou fundo, e pela primeira vez desde o início da febre, algo diferente atravessou sua expressão. Um fio delicado de esperança, frágil e necessário.

Um pequeno sorriso surgiu, contido, quase cauteloso.

— Então não vá de mãos vazias — disse ela, com suavidade firme. — Leve comida. E água. Você vai precisar.

Thomas assentiu, já se dirigindo ao canto da casa onde guardavam o pouco que tinham. Separou pedaços de pão endurecido, envolveu-os em um pano, pegou um recipiente com água e ajustou tudo com movimentos rápidos, sem desperdício de tempo.

Antes de sair, lançou mais um olhar para Edric. Não disse nada, mas permaneceu ali por alguns segundos. Então se virou e partiu.

A porta voltou a se fechar, desta vez sem violência, mas o eco do impacto anterior ainda parecia vibrar pelas paredes da casa.

Eleanora permaneceu ao lado da cama, em silêncio. Molhou novamente o pano, espremeu-o com cuidado e o colocou sobre a testa de Edric, repetindo o gesto como havia feito tantas vezes.

— Aguente mais um pouco… — murmurou, inclinando-se sobre ele. — Só mais um pouco.

Do lado de fora, o vento continuava a soprar sobre Villard, carregando consigo o frio e, agora, algo mais — um rumor que crescia entre as casas, espalhando-se de porta em porta, como a própria doença que ainda não havia cessado.

As horas se arrastaram com a lentidão própria de quem espera sem poder agir. A luz do dia foi se dissolvendo pouco a pouco, cedendo lugar a um crepúsculo frio que invadiu Villard sem pedir licença. Dentro da casa, o ar parecia mais denso, carregado pelo cansaço e pela repetição dos mesmos gestos. Eleanora já havia perdido a conta de quantas vezes molhara o pano, de quantas vezes tocara a testa de Edric na esperança de sentir alguma mudança. Nada vinha. Apenas o mesmo calor persistente, a mesma respiração irregular.

À medida que a noite se aproximava, a inquietação começou a se transformar em algo mais difícil de conter. Seu olhar desviava com frequência para a porta, como se pudesse antecipar sua abertura.

Então, de repente, ela veio.

A porta se abriu com força suficiente para fazer a madeira ranger, e Eleanora se levantou imediatamente, o coração disparado. Thomas entrou primeiro, ainda ofegante, mas dessa vez não estava sozinho.

Logo atrás dele surgiu um homem idoso, de passos lentos e firmes, apoiando-se em um cajado de madeira escura que parecia tão gasto quanto as próprias casas de Villard. Sua presença não era imponente no sentido comum, mas carregava um peso silencioso, difícil de ignorar. Vestia mantos simples, em tons desbotados, marcados pelo uso constante, e seu rosto era sulcado por rugas profundas que não escondiam, mas revelavam o tempo. A barba, longa e branca, caía sobre o peito, levemente desalinhada, enquanto os olhos — claros e atentos — percorriam o interior da casa com calma.

— Meu amor — disse Thomas, aproximando-se, ainda recuperando o fôlego —, este é Arkhavel… o mago de quem falei.

Ele fez um gesto discreto em direção ao homem.

— Muitos já foram atendidos. Ele… ele ajudou muita gente lá fora. Agora… — sua voz falhou por um instante, antes de se firmar — agora ele vai ver o Edric.

O idoso inclinou levemente a cabeça, em cumprimento.

— Boa noite — disse, com uma voz serena, firme, mas sem qualquer pressa. — Onde está o menino?

Eleanora respondeu com um gesto imediato, sem confiar na própria voz, e conduziu os dois até o pequeno quarto. Seus passos eram rápidos, mas contidos. Ao entrarem, o silêncio pareceu se aprofundar.

Edric permanecia na cama, imóvel, o rosto ainda marcado pelos vestígios da febre. A luz fraca que vinha do cômodo principal mal alcançava seu corpo, desenhando sombras suaves ao redor.

Eleanora e Thomas se posicionaram lado a lado, próximos o suficiente para que suas mãos se encontrassem sem que percebessem de imediato. Quando perceberam, não se soltaram.

Arkhavel aproximou-se sem pressa. Pousou o cajado ao lado da cadeira e se sentou onde Eleanora estivera antes. Por alguns instantes, limitou-se a observar o menino, em silêncio, como se escutasse algo que não estava ao alcance dos outros.

Então, lentamente, estendeu a mão direita e a colocou sobre a testa de Edric.

Seus olhos se fecharam.

A outra mão se ergueu no ar, seguida pela primeira, que se afastou do menino apenas o suficiente para que ambas pairassem sobre ele. Seus lábios começaram a se mover, entoando palavras baixas, em uma cadência estranha, difícil de acompanhar.

O som era contínuo, fluido, quase hipnótico.

Pouco a pouco, uma luz branca começou a surgir nas palmas de suas mãos. Não era intensa de início, mas crescia com constância, como uma chama que se fortalece sem jamais oscilar. A claridade se derramou sobre Edric, envolvendo-o com suavidade, sem violência, como se o tocasse sem realmente tocá-lo.

Eleanora apertou a mão de Thomas com mais força.

O tempo se alongou novamente, mas agora de outra forma — carregado por expectativa, por uma tensão silenciosa que nenhum dos dois ousava interromper. A luz continuava, firme, estável, enquanto a voz do mago se mantinha constante, preenchendo o espaço do quarto.

Minutos se passaram.

Então, tão subitamente quanto havia começado, tudo cessou.

A luz se dissipou. A voz se calou. As mãos de Arkhavel baixaram, repousando sobre seus próprios joelhos.

Ele abriu os olhos.

— A febre passou — disse, simplesmente. — Ele deve continuar dormindo. Até amanhã.

Por um instante, ninguém se moveu.

Então Eleanora se soltou de Thomas e avançou até a cama. Sua mão pousou imediatamente sobre a testa de Edric, e ela parou ali, com medo de confirmar.

O calor havia desaparecido.

A pele estava morna, tranquila — viva, mas em repouso.

A respiração, antes irregular, agora seguia um ritmo leve, profundo, estável, como o de alguém finalmente livre de um peso invisível.

Eleanora fechou os olhos por um breve momento, e quando os abriu novamente, algo dentro dela havia cedido — não em fraqueza, mas em alívio.

— Ele… — sua voz falhou, e ela tentou novamente — ele está bem…

Thomas deu um passo à frente, sem conseguir esconder a emoção que lhe atravessava o rosto.

Atrás deles, Arkhavel permaneceu em silêncio, observando. Aquele momento não lhe pertencia mais.

Eleanora permaneceu algum tempo ao lado da cama, antes de finalmente se erguer. Secou discretamente os olhos com as costas da mão e voltou-se para o mago, que já recolocava o cajado ao seu lado com a mesma calma de sempre.

— O senhor… aceita algo para beber? — perguntou, com a voz ainda marcada pela emoção.

Arkhavel a observou antes de assentir.

— Aceito, sim.

Thomas já havia se dirigido à pequena mesa no cômodo principal, ajeitando o que podia com movimentos simples, mas apressados. Quando o mago se aproximou, ele puxou uma cadeira para que se sentasse.

— Por favor — disse, ainda com respeito evidente na voz.

Arkhavel acomodou-se, apoiando o cajado ao lado da mesa. Thomas, após um breve instante de hesitação, pegou um pedaço de pão e o estendeu a ele.

— Não é muito, mas…

O mago aceitou, com um leve gesto de cabeça.

— É o suficiente.

Por alguns instantes, o silêncio se estabeleceu de forma diferente daquele que dominara a casa antes — agora não havia peso, apenas um cansaço que começava a se dissipar.

— Essa doença… — começou Arkhavel, partindo o pão com calma — se espalhou mais rápido do que eu esperava. Em poucos dias, já havia alcançado vilas distantes entre si. — Ele levou um pedaço à boca, mastigando sem pressa antes de continuar. — Como curandeiro, não me restou escolha. Saí assim que percebi a extensão do problema. Tenho seguido de vila em vila desde então, tentando alcançar o máximo de pessoas possível.

Thomas inclinou a cabeça, sincero.

— O senhor salvou nosso filho. Não há palavras que paguem isso.

Eleanora retornou nesse momento, trazendo três copos e um pequeno recipiente com bebida. Serviu primeiro Arkhavel, depois Thomas, e por fim a si mesma, antes de se sentar à mesa com eles, ainda próxima o suficiente para ouvir qualquer som vindo do quarto.

Arkhavel segurou o copo por um instante, observando o líquido antes de beber um pequeno gole.

— Passei por muitas vilas nos últimos dias — continuou, apoiando o copo na mesa —, mas… por minha observação… Villard é uma das mais pobres que encontrei.

Thomas não se ofendeu. Apenas assentiu, com uma honestidade tranquila.

— É… — respondeu, apoiando os braços sobre a mesa. — A vida aqui nunca foi fácil. A terra não ajuda muito, o frio leva mais do que deveria… mas a gente faz o que pode. — Deu um leve suspiro, mas sem amargura. — E seguimos.

Eleanora manteve o olhar baixo por um instante, girando levemente o copo entre os dedos, antes de concordar com um gesto silencioso.

Arkhavel permaneceu calado por alguns segundos, pesando aquelas palavras com cuidado. Então, sem dizer nada, inclinou-se para o lado e abriu a bolsa que carregava consigo. Seus movimentos eram lentos, mas decididos.

De dentro, retirou alguns livros antigos e pequenos tomos, todos visivelmente gastos pelo tempo e pelo uso. Depositou-os sobre a mesa, um a um, com um cuidado que contrastava com a simplicidade do gesto.

— Usem isso — disse, por fim.

Thomas franziu o cenho, surpreso.

— Isso…?

— Livros — respondeu Arkhavel, com naturalidade. — Podem vendê-los. Conseguirão algum dinheiro. O suficiente para atravessar melhor o inverno, talvez mais do que isso.

Thomas imediatamente ergueu as mãos, em recusa.

— Não, não… não podemos aceitar isso. O senhor já fez mais do que o suficiente por nós.

— Concordo — acrescentou Eleanora, com firmeza suave. — Não seria justo.

Arkhavel os observou, sem qualquer sinal de irritação, apenas com uma paciência tranquila.

— Não têm mais utilidade para mim — disse. — Se não quiserem vendê-los… usem-nos como combustível. Este inverno será pesado.

Thomas soltou uma pequena respiração, quase incrédulo.

— Mesmo assim… não podemos…

O mago então se inclinou levemente para frente, seus olhos agora mais atentos.

— São apenas histórias de outros magos — explicou — e alguns registros simples. Nada que eu já não conheça. — Fez uma pausa breve. — Sou velho. Muito mais do que gostaria de admitir. Em breve… isso tudo deixará de me pertencer de qualquer forma.

O silêncio caiu sobre a mesa.

— Não tenho herdeiros — continuou ele, com simplicidade. — E esses livros não fazem diferença alguma em uma estante esquecida de alguma biblioteca. — Empurrou-os suavemente na direção do casal. — Aqui… farão.

Thomas olhou para Eleanora, que por sua vez encarava os livros com uma mistura de hesitação e respeito. Havia algo naquele gesto que ultrapassava o valor material.

Depois de um tempo, ele abaixou as mãos.

— …Está bem — disse, por fim, com voz mais baixa. — Nós aceitamos.

Eleanora assentiu logo em seguida.

— Obrigada… de verdade.

Arkhavel apenas inclinou a cabeça, o gesto encerrando o assunto.

Pouco depois, ele se levantou, apoiando-se novamente no cajado.

— Agradeço pela comida e pela bebida — disse. — Mas preciso continuar. Ainda há muitos esperando.

Thomas e Eleanora se levantaram imediatamente.

— O senhor não imagina o quanto somos gratos — disse Thomas, apertando a mão do mago com firmeza.

— Não mesmo — completou Eleanora, emocionada.

Arkhavel sorriu, um sorriso discreto, mas sincero.

— Imagino o suficiente.

Thomas o acompanhou até a porta, abrindo-a com cuidado desta vez. O vento frio da noite invadiu o interior da casa, mas já não carregava o mesmo peso de antes.

— Que sua jornada seja segura — disse Thomas.

Arkhavel apenas assentiu e seguiu seu caminho, desaparecendo pouco a pouco na escuridão de Villard.

Quando Thomas fechou a porta e voltou para dentro, encontrou Eleanora ainda próxima à mesa, olhando para os livros.

Por um breve momento, nenhum dos dois disse nada.

Então, com a tensão finalmente se esvaindo, aproximaram-se e se abraçaram com força. Não havia pressa naquele gesto, nem necessidade de palavras. Era um abraço carregado de tudo o que haviam suportado — e, sobretudo, do alívio profundo de não terem perdido o filho.

O corpo de Edric jazia estendido sobre o chão frio do salão de entrada da Cúspide de Naerath, imóvel, pálido, enquanto o sangue se espalhava lentamente sob ele, formando uma mancha escura que crescia sem controle.

Elena estava ajoelhada ao seu lado, pressionando o ferimento no peito com as duas mãos trêmulas, tentando conter o fluxo que insistia em escapar por entre seus dedos, já completamente ensanguentados.

— Não… não… — murmurava, sem perceber que falava em voz alta.

Leif se movia pelo salão com rapidez, reunindo mantimentos, armas e qualquer coisa que pudesse ser levada.

Dain permanecia ao lado de Edric, ajoelhado, as mãos erguidas enquanto murmurava encantamentos de cura em sequência, repetindo palavras com precisão, tentando estabilizar o que já parecia além de seu alcance.

As luzes suaves que surgiam de suas mãos tocavam o corpo de Edric, mas desapareciam rápido demais, sem produzir o efeito esperado.

Ele parou.

Respirou fundo, o olhar fixo no ferimento.

— Não está funcionando… — disse, mais para si mesmo do que para os outros.

Ergueu a cabeça e olhou ao redor, buscando qualquer alternativa imediata.

Foi então que viu Seris.

Ela estava parada a poucos metros dali, imóvel, os olhos fixos na cena, incapaz de reagir.

Sua postura, sempre firme, agora parecia ausente, como se sua mente não tivesse conseguido acompanhar a violência do que havia acabado de acontecer.

— Seris! — a voz de Dain ecoou pelo salão, firme, direta.

— Preciso de você.

Ela não respondeu de imediato.

— Seris! — repetiu, mais alto.

O chamado a atingiu como um choque.

Ela piscou, o corpo reagindo com um sobressalto, e então finalmente se moveu.

— Prepare os cavalos — continuou Dain, sem perder tempo — e monte duas macas.

Vamos levar Edric… e Aldren.

Ela assentiu, ainda retomando o controle de si, e saiu sem dizer nada.

Dain voltou sua atenção para Edric.

Elena continuava ali, pressionando o ferimento, mas seu corpo denunciava o esforço — os ombros tensos, as mãos instáveis, o olhar preso em um ponto fixo.

Dain se levantou rapidamente e começou a procurar ao redor.

Seus olhos encontraram o que precisava — uma tesoura entre os suprimentos espalhados.

Pegou-a e voltou até Elena.

— Preciso de água — disse, firme.

— E panos limpos.

Vamos tratar disso direito agora.

Ela ergueu o olhar para ele, ainda abalada.

— Vá — insistiu.

— E lave as mãos.

Elena assentiu, levantando-se com dificuldade antes de se afastar em direção à bacia.

Sem esperar, Dain começou a cortar a camisa de Edric.

O tecido cedeu facilmente, revelando o ferimento.

Ele travou por um instante.

O feitiço de Malagar havia aberto um buraco profundo no centro do peito, a carne rasgada, o sangue ainda fluindo com força, quente, impossível de ignorar.

— Precisamos parar isso… — murmurou.

Elena retornou com a bacia e os panos.

Dain não perdeu tempo.

Pegou um deles, mergulhou na água e começou a limpar o ferimento com cuidado firme, removendo o excesso de sangue para enxergar melhor a extensão do dano.

O pano rapidamente se tingiu de vermelho.

Ele o descartou ao lado e pegou outro.

Repetiu o processo, mais de uma vez, até que conseguiu, ao menos, reduzir o fluxo o suficiente para agir com mais precisão.

Então pressionou com força controlada, tentando estancar o sangramento.

— Segure aqui — disse, guiando as mãos de Elena de volta ao lugar.

— Não solte.

Ela obedeceu, concentrando toda a sua atenção na tarefa, aquilo era a única coisa que ainda a mantinha de pé.

Dain improvisou uma bandagem com os panos restantes, fixando-os com rapidez ao redor do tórax de Edric, garantindo pressão constante sobre o ferimento.

Só então voltou a erguer as mãos.

Desta vez, não hesitou.

As palavras do encantamento vieram mais firmes, mais focadas, e a luz branca voltou a emergir de suas mãos, descendo sobre o corpo de Edric com intensidade renovada, envolvendo o ferimento que agora, ao menos, não sangrava livremente.

— Aguente… — murmurou, sem saber se falava com Edric… ou consigo mesmo.

O tempo avançou sem que ninguém se desse conta exata de quanto havia passado, medido apenas pela urgência dos gestos e pela respiração ainda instável de Edric sob as mãos de Dain.

A luz do encantamento persistia, mais controlada agora, concentrada sobre o ferimento, enquanto o monge mantinha o foco absoluto naquilo que ainda podia ser feito.

O som de passos apressados rompeu a tensão contida.

Seris retornou, trazendo consigo duas macas improvisadas, feitas com tábuas e mantos firmemente amarrados.

Entrou sem hesitar desta vez, deixando uma delas ao lado do corpo de Aldren.

No mesmo momento, Leif surgiu pela lateral do salão, vindo da direção da carroça.

Não trocaram palavras.

Bastou um olhar.

Seris posicionou-se aos pés de Aldren, ajustando a base da maca, enquanto Leif se inclinou junto aos ombros do mago ferido.

Com cuidado controlado, ergueram-no o suficiente para deslizá-lo sobre a estrutura improvisada.

O corpo de Aldren cedeu sem resistência, ainda inconsciente, marcado pelas feridas que Dain mal havia conseguido estabilizar antes.

— Devagar… — murmurou Leif, mais como orientação do que como dúvida.

Assim que o corpo foi acomodado, cada um segurou uma extremidade da maca.

Levantarom juntos, em sincronia, e seguiram em direção à saída, os passos firmes, mas atentos a cada oscilação do peso que carregavam.

Dain não desviou o olhar de Edric enquanto eles saíam.

As mãos ainda erguidas, ele manteve o encantamento ativo por mais alguns instantes, observando com atenção cada reação — ou ausência dela.

A respiração de Edric permanecia fraca, irregular, mas havia algo diferente agora.

O sangue, antes constante, já não fluía.

Ele soltou o ar lentamente.

— Parou… — disse, quase inaudível.

Elena ergueu o olhar, ainda pressionando a bandagem.

— Tem certeza?

Dain assentiu, os olhos fixos no ferimento.

— Não está piorando… — respondeu.

— Já é alguma coisa.

Pouco depois, passos retornaram ao salão.

Seris e Leif haviam voltado, o ritmo ainda urgente, mas agora mais controlado.

Dain finalmente abaixou as mãos, deixando a luz se dissipar.

O cansaço veio de imediato, mas não havia espaço para ele.

— Vamos levá-lo — disse.

Elena assentiu, embora seus movimentos ainda carregassem o peso do que havia acabado de enfrentar.

Com cuidado, os dois se posicionaram ao lado de Edric.

Dain apoiou uma mão sob os ombros, garantindo que a bandagem permanecesse firme, enquanto Elena sustentava a parte inferior do corpo.

Ergueram-no com cautela, evitando qualquer movimento brusco.

O corpo de Edric permanecia inerte.

Antes de seguirem, Dain fez um gesto breve.

— Água.

Os dois foram até a bacia.

Lavaram rapidamente as mãos, removendo o excesso de sangue que já começava a secar na pele.

O gesto era automático, necessário, sem espaço para pausa.

Leif se aproximou enquanto voltavam.

— Está tudo pronto — disse, direto.

— Mantimentos, armas… tudo que dava para levar.

Dain assentiu.

— Os cavalos?

— Prontos.

Seris permaneceu próxima à entrada, observando o exterior, atenta a qualquer movimento além da torre.

Por um instante breve, todos se encontraram no mesmo espaço, conscientes do que deixavam para trás.

Era um lugar que precisava ser abandonado.

— Vamos — disse Dain.

E, sem hesitar, seguiram.

O som dos cascos ecoava pela trilha estreita e pedregosa enquanto a carroça avançava aos solavancos, puxada pelo par de cavalos já cansados.

A torre da Cúspide de Naerath desaparecia aos poucos atrás deles, engolida pela neblina que se adensava com o cair da noite.

No banco de condução, Dain segurava as rédeas com firmeza, os olhos atentos ao caminho irregular, iluminado apenas pela luz pálida da lua.

Sobre a carroça, Edric e Aldren permaneciam deitados, imóveis.

Ao lado deles, Elena se movia sem descanso, o punhal preso à cintura, o olhar inquieto alternando entre os dois.

Trocava panos, ajustava bandagens, murmurava palavras baixas que se perdiam no vento frio da madrugada.

À frente e atrás da carroça, Leif e Seris cavalgavam em alternância, protegendo o grupo.

Leif mantinha a dianteira, a mão próxima ao cabo da espada, atento a qualquer sinal no caminho.

Seris vigiava a retaguarda, a lança apoiada nas costas, os olhos percorrendo a escuridão em busca de movimento.

Ninguém falava.

Apenas o ranger das rodas, o impacto dos cascos contra a pedra e o vento cortando entre as árvores acompanhavam a fuga.

Já distantes da torre, decidiram parar sob a copa de carvalhos retorcidos.

A fogueira crepitava baixa, lançando luz instável sobre os rostos marcados pelo cansaço.

Dain foi o primeiro a falar.

— Conheço alguém.

Os outros se voltaram para ele.

Ele hesitou por um breve instante, como se medisse o peso do que diria em seguida.

— Um druida.

Um curandeiro.

Alguém que pode salvar Edric… e Aldren.

Elena ergueu o olhar, ainda ajoelhada ao lado de Edric.

— Quem?

— Seu nome é Myrddren — respondeu Dain.

— Ele vive nos arredores de Edevane, a leste daqui.

— Eu o conheci quando estive no Mosteiro de Caelum.

— Foi ele quem ensinou aos monges as magias de cura que usamos.

— Aprendi muito com ele.

Leif passou a mão pelo queixo, pensativo.

— Edevane… nunca fui até lá.

— Mas já ouvi falar das florestas.

— Terreno difícil.

— Pouco previsível.

Seris assentiu, os braços cruzados.

— Melhor isso do que ficar aqui esperando.

Elena apertou levemente a bandagem no peito de Edric antes de falar, a voz baixa, mas firme.

— Se existe alguma chance, nós vamos.

Não houve discussão.

Dain retirou um pergaminho gasto da bolsa e o estendeu no chão, próximo à fogueira.

O mapa era simples, traçado à mão, mas suficiente.

Os quatro se aproximaram.

— Vamos descer pelo Vale de Norwyn — disse ele, apontando com o dedo.

— Evitamos as estradas principais.

— Depois cruzamos o Bosque de Caldarion e seguimos até Edevane.

Leif analisou o trajeto em silêncio.

— Vai ser mais longo.

— Vai ser mais seguro — respondeu Dain.

Seris inclinou a cabeça, concordando.

— Então não podemos perder tempo.

A decisão foi tomada ali.

A fogueira começou a ceder, reduzindo-se a brasas enquanto cada um retornava ao seu lugar.

O cansaço pesava, mas ninguém se permitia descansar por completo.

A jornada que os aguardava seria longa.

E perigosa.

Mas agora havia um caminho.

Havia uma esperança.

E, por ora, isso bastava.