O Contador de Histórias
A Praça dos Degraus, em Myriath, era um dos espaços públicos mais antigos e simbólicos da cidade, conhecida como o lugar onde vozes se levantavam e verdades competiam entre si. Construída em torno de uma ampla escadaria semicircular de pedra clara — os degraus que lhe davam nome — a praça descia em níveis suaves até um largo central, permitindo que qualquer orador fosse visto e ouvido por dezenas, às vezes centenas, de pessoas. Ali, o som parecia obedecer a leis próprias: palavras lançadas do centro ecoavam naturalmente pelos arcos de pedra, como se a própria arquitetura tivesse sido pensada para amplificar discursos, cânticos e proclamações, transformando ideias em espetáculo.
Durante o dia, o espaço era tomado por pregadores de ocasião, filósofos errantes, mercadores de ideias e profetas improvisados, cada qual disputando atenção com promessas inflamadas, advertências veladas ou teorias que beiravam o delírio. À noite, tochas presas aos corrimões de pedra lançavam uma luz trêmula sobre rostos atentos, conferindo ao lugar um ar quase ritualístico, onde crenças nasciam, boatos se espalhavam e desconfianças eram plantadas com a mesma facilidade. Guardas de Myriath observavam à distância, apoiados em lanças ou colunas, intervindo apenas quando a retórica ameaçava se transformar em violência. Na Praça dos Degraus, não havia censura formal — apenas o julgamento volátil da multidão, que decidia quais vozes mereciam ser ouvidas e quais seriam engolidas pelo barulho incessante da própria cidade.
Na manhã seguinte, Edric seguiu em direção à praça. Não ficava longe de onde estava hospedado, e ele chegou cedo o bastante para ver os primeiros grupos se formando, atraídos mais pelo hábito do que por qualquer promessa específica. Escolheu um dos níveis intermediários dos degraus e ali permaneceu, atento, misturando-se aos ouvintes, decidido a observar, ouvir e entender em que momento poderia encontrar Serith. Ao longo daquele primeiro dia, porém, o ancião não apareceu. Em seu lugar, pregadores mais jovens se alternavam no centro da praça, cada qual tentando impor sua voz sobre a anterior.
Falavam de assuntos diversos. Alguns se limitavam a temas simples, quase inofensivos — moral, trabalho, devoção cotidiana. Outros, mais ousados, tocavam em questões polêmicas, como o recente aumento de impostos decretado pelo reino, atraindo aplausos de uns e vaias de outros. Edric escutou tudo com atenção crescente, mas algo lhe pareceu estranho à medida que as horas passavam: nenhuma das pregações mencionava magia. Nem como promessa, nem como ameaça, nem mesmo como metáfora. Para uma cidade como Myriath, onde informações circulavam com tamanha liberdade, aquela ausência parecia deliberada. Teria alguém imposto um limite? Ou seria apenas um acordo tácito, fruto de experiências passadas que ninguém se dispunha a repetir? Sem respostas, Edric deixou a praça ao final do dia, levando consigo mais perguntas do que certezas.
Voltou na manhã seguinte. O sol já avançava quando, passadas algumas horas, um movimento diferente percorreu os degraus. O murmúrio da multidão se reorganizou, como se um fio invisível estivesse sendo puxado. Edric ergueu o olhar e soube, antes mesmo de ouvir a voz, que era ele.
Serith surgiu no centro da praça com a naturalidade de quem não precisava anunciar a própria presença. Era um ancião magro e alto, de postura surpreendentemente firme. Os cabelos longos e a barba espessa, brancos como a neve, emolduravam um rosto marcado pelo tempo, mas atento, quase severo. Quando começou a falar, sua voz ergueu-se forte e retumbante, preenchendo os degraus sem esforço. Não pregava, não acusava, não prometia. Contava histórias.
Falou de uma ilha muito distante, chamada Aurelith, localizada em Thiramar, cercada por águas de tonalidade impossível, onde animais fantásticos caminhavam livremente — criaturas jamais vistas no reino de Eldoria, descritas com tal precisão que pareciam respirar nas palavras do ancião.
A praça silenciou. Um silêncio completo e contemplativo tomou conta dos degraus, quase hipnótico. Rostos se inclinaram para frente, respirações se tornaram mais lentas, e até os guardas pareceram esquecer, por um instante, a função que exerciam. Serith falava sem pressa, dominando o ritmo da narrativa como quem conhece profundamente o poder da pausa. Aos seus pés, um chapéu gasto repousava sobre a pedra, recebendo moedas depositadas com cuidado, uma após a outra, sem quebrar o encanto do momento.
Quando a história chegou ao fim, o mundo pareceu retornar de súbito. As pessoas recuperaram o ar, trocaram olhares, e então uma chuva de aplausos se espalhou pela praça. Edric desceu os degraus com o coração acelerado. Aproximou-se do ancião, depositou algumas moedas no chapéu e elogiou a história com sinceridade. Serith inclinou levemente a cabeça, agradecendo com um sorriso breve, quase cúmplice.
Edric então disse que tinha algumas perguntas a fazer. Perguntas que não cabiam ali, entre ecos e olhares atentos. Convidou-o para compartilhar uma refeição. Serith aceitou prontamente. Juntos, deixaram a Praça dos Degraus, enquanto atrás deles outras vozes já começavam a disputar espaço, como se nada tivesse acontecido.
A taberna ficava a poucas ruas da praça, escondida entre construções antigas de pedra escurecida pelo tempo. Não era um lugar sofisticado, mas exalava um calor acolhedor: o cheiro de pão recém-assado misturava-se ao de ensopados fervendo lentamente, e o burburinho constante de conversas criava uma cortina sonora que garantia certa privacidade. Edric e Serith sentaram-se a uma mesa de madeira gasta, próxima a uma janela estreita por onde a luz do meio-dia entrava em faixas oblíquas. Pediram a refeição e, enquanto aguardavam, o silêncio inicial foi preenchido apenas pelo ranger das cadeiras e pelo tilintar distante de canecas.
Foi Edric quem começou a falar. Contou sobre Eldorwyn, a vida simples entre campos de trigo e bosques antigos, e sobre o desejo que o acompanhava desde a infância: tornar-se um mago. Falou da Academia Arcana de Varethia, das tentativas repetidas, das recusas sempre iguais, da frieza com que lhe diziam que não havia dom em seu sangue. Enquanto ele falava, Serith o ouvia com atenção, apoiando os antebraços na mesa, o olhar fixo em algum ponto além do rosto de Edric, como se aquelas palavras lhe fossem antigas.
Quando Edric terminou, o ancião soltou um suspiro breve, carregado de desdém contido.
— As academias — disse Serith — sempre foram mais interessadas em preservar poder do que em compreender a magia. O Conselho dos Magos não governa apenas feitiços; governa narrativas, linhagens e conveniências. Chamam isso de ordem. Eu chamo de medo.
Antes que Edric pudesse responder, a comida chegou. Pratos fundos foram colocados sobre a mesa, acompanhados de pão e colheres de madeira. O vapor subia lentamente, trazendo consigo um aroma reconfortante. Por alguns instantes, ambos se dedicaram à refeição em silêncio.
Foi então, entre uma colherada e outra, que Edric retomou o assunto com cautela. Comentou que conhecera um escriba chamado Tavian, e que ele lhe falara sobre a possibilidade de aprendizado fora da Academia — tutores clandestinos, magos que ensinavam à margem do olhar do Conselho. Serith não pareceu surpreso. Limitou-se a apontar a colher na direção de Edric, confirmando com um gesto simples aquilo que fora dito.
— Existem — afirmou. — Sempre existiram.
O coração de Edric acelerou.
— O senhor… conhece algum mago disposto a ensinar?
Serith levou a colher à boca, mas parou no meio do gesto. Ficou imóvel por alguns instantes, o olhar perdido no fundo do prato, como se pesasse não apenas a resposta, mas as consequências dela. Então pousou a colher, ergueu os olhos e disse:
— Dizem que um feiticeiro foi visto nas ruínas de Valtoren, ao sul. Um homem que conhece segredos que nem mesmo os mestres de Varethia ousam pronunciar.
Edric sentiu o coração bater com força.
— E quem é ele?
O ancião estreitou os olhos.
— Chamam-no de Magnus Obscurus. Dizem que ele já foi um arquimago, mas se voltou para artes proibidas. Agora vive entre as ruínas, esperando por tolos que buscam poder fácil.
Edric engoliu em seco. Artes proibidas soava perigoso, mas se havia um conhecimento além do que a Academia ensinava, ele precisava descobri-lo.
Serith continuou, a voz mais baixa, como se aquela parte da história exigisse cuidado.
— Seu nome verdadeiro é Malagar. Já foi um dos magos mais famosos de seu tempo, mas nunca aceitou as restrições impostas pelo Conselho dos Magos. Era poderoso demais, e por não causar problemas diretos, o Conselho fez vista grossa durante anos. Se você o encontrar, acredito que ele possa aceitá-lo como aluno — talvez até como uma afronta deliberada contra aqueles que o rejeitaram.
Edric sentiu algo se firmar dentro de si. Pela primeira vez em sua vida, o sonho que sempre parecera distante e abstrato agora tocava o chão da realidade. Não havia certeza alguma — nem de que encontraria Malagar, nem de que seria aceito —, mas a simples descoberta de que a magia podia ser aprendida fora do círculo estreito controlado pelo Conselho dos Magos foi suficiente para aquecer-lhe o coração. Pela primeira vez, seu desejo não era apenas um anseio impossível, mas um caminho — perigoso, incerto, e ainda assim real.