O Preço da Informação
Os dias em Myriath não se anunciavam com clareza. Para Edric, eles pareciam escorrer uns sobre os outros, indistintos, marcados apenas pelo cansaço crescente nos pés e pela sensação constante de estar sempre um passo atrás do que realmente importava. A cidade acordava cedo e nunca dormia por completo; mesmo quando o sol se escondia, havia vozes nos becos, lâmpadas acesas nas janelas altas e sombras que se deslocavam com propósito demais para serem ignoradas. Edric caminhava sem destino fixo, deixando que as ruas o conduzissem, aprendendo aos poucos que Myriath jamais se revelava a quem chegava com pressa.
Nos primeiros dias, ele limitou-se a observar. Sentava-se nos degraus de fontes públicas, demorava-se nos mercados, fingia interesse em mercadorias que não podia pagar. Ouvir tornara-se seu ofício. Descobriu rapidamente que a cidade falava de tudo, mas nunca de forma direta. Informações vinham em fragmentos: uma frase interrompida, um comentário feito baixo demais, uma risada curta demais para ser honesta. Entre mercadores e viajantes, aprendeu que contratos eram mais respeitados que promessas, e que palavras podiam valer tanto quanto moedas — às vezes mais.
Foi assim, quase por acaso, que ouviu pela primeira vez menções ao Conselho de Magos. O nome surgia com cautela, nunca acompanhado de entusiasmo. Não era uma instituição celebrada, mas temida e aceita como se aceita o clima ou as estações. Edric compreendeu, aos poucos, que o Conselho não ensinava magia; ele a regulamentava. Determinava quem podia praticá-la, onde, sob quais condições — e, sobretudo, quem jamais deveria sequer tentar. Magia não era um dom livre nem um estudo aberto: era uma força vigiada, registrada, controlada por homens e mulheres cujo poder se estendia muito além dos círculos arcanos.
Com o passar dos dias, Edric ouviu histórias de aspirantes que nunca passaram do primeiro teste, de aprendizes expulsos por demonstrarem “instabilidade” e de escolas que sequer aceitavam candidatos sem algum tipo de histórico familiar. O padrão repetia-se com desconfortável clareza: filhos de magos tornavam-se magos; filhos de nobres recebiam instrução; o restante aprendia cedo a não fazer perguntas. Havia exceções, diziam — sempre havia —, mas eram raras o bastante para se tornarem lendas convenientes, usadas para justificar um sistema que permanecia fechado.
Foi nesse ponto que algo dentro de Edric começou a se rearranjar. Ele lembrava-se das salas frias da Academia Arcana de Varethia, das recusas formais, das palavras ditas com falsa gentileza. Sangue importa. Quantas vezes ouvira isso, explícita ou implicitamente? Na época, soara como desculpa, como arrogância disfarçada de tradição. Agora, em Myriath, compreendia que não era apenas preconceito — era método. Manter o ensino restrito aos mesmos nomes, às mesmas famílias, às mesmas casas, significava manter o poder concentrado, incontestado, distante demais para ser alcançado por alguém como ele.
Edric passou a perceber que a magia, mais do que uma arte, era uma estrutura social. Um idioma que poucos aprendiam desde o berço, enquanto os demais sequer tinham permissão para tentar pronunciá-lo. O Conselho existia para garantir isso: não apenas para conter abusos, mas para preservar uma hierarquia antiga, na qual alguns nasciam destinados a governar o invisível enquanto o restante aceitava viver à sua sombra.
Quando se deu conta, os dias já haviam se acumulado em número suficiente para que a cidade começasse a reconhecê-lo. Alguns rostos tornaram-se familiares; algumas conversas cessavam quando ele se aproximava. Edric sentia o peso do que aprendera — não como revelação súbita, mas como uma pressão lenta, contínua. Myriath lhe ensinara mais em poucos dias do que anos de esperança em Eldorwyn: não bastava querer magia. Não bastava estudá-la. Antes de tudo, era preciso pertencer.
Edric passou a frequentar a área dos escribas como quem cria um hábito necessário. Todas as manhãs, após comer o mínimo que podia pagar, atravessava as ruas que levavam às copiarias e bancas de pergaminhos, onde o som constante de penas riscava o ar como chuva fina. Ali, homens e mulheres inclinavam-se sobre mesas estreitas, copiando contratos, cartas e registros com a paciência de quem sabia que cada palavra tinha dono. Edric caminhava devagar, fingindo desinteresse, observando os rostos, esperando reconhecer algum deles — um nome que ainda não tinha rosto, mas que aprendera a procurar mesmo assim.
Os dias se repetiram. Ele voltava sempre ao mesmo trecho, sentava-se nos mesmos bancos de pedra, passava os olhos pelas mesmas fachadas. Perguntou pouco, ouviu muito. Aos poucos, compreendeu que ali ninguém gostava de ser abordado diretamente; escribas eram como portas fechadas, e bater com força demais só garantia que nunca seriam abertas. Ainda assim, Edric persistiu, retornando dia após dia, até que sua presença deixou de ser estranha e passou a ser apenas parte da paisagem.
Foi numa dessas manhãs, quando já considerava a possibilidade de estar perdendo tempo, que uma voz surgiu às suas costas, baixa e firme demais para ser ignorada.
— Soube que estava me procurando. Do que se trata?
Edric deu um pulo involuntário, o coração disparando. Virou-se rápido demais e quase esbarrou no homem atrás dele. Não era velho nem jovem demais, vestia roupas simples, mas limpas, e trazia nos olhos uma atenção calculada, como se já tivesse observado Edric por dias antes de decidir falar.
— O senhor… o senhor é Tavian? — perguntou, ainda tentando recuperar o fôlego.
O homem inclinou levemente a cabeça, num gesto que não era exatamente um aceno.
— Sou.
Edric respirou fundo, endireitou-se.
— Meu nome é Edric. Eu… eu gostaria de fazer algumas perguntas.
Tavian avaliou-o por um instante curto demais para ser confortável, depois fez um gesto para que o seguisse.
— Venha. Não é o tipo de conversa que se tem em pé.
Conduziu-o por um corredor estreito, afastado do burburinho principal, até uma sala modesta, iluminada por uma única janela alta. O lugar cheirava a tinta fresca e pergaminho antigo. Havia ali uma mesa larga, estantes repletas de rolos amarrados e uma cadeira que rangia ao menor movimento. Quando ambos se sentaram, Tavian não perdeu tempo com cortesias.
— Suas perguntas têm um preço — disse, sem rodeios. — Você deve saber muito bem que informações têm seu valor.
Edric abriu a boca para responder, já preparado para concordar, mas Tavian ergueu a mão, interrompendo-o antes que pudesse falar.
— Meu tempo aqui é precioso. Então você vai pagar primeiro pelo direito de fazer as perguntas. Se eu tiver alguma resposta, pagará mais. E o valor muda de acordo com o peso da informação.
Edric permaneceu em silêncio por alguns instantes, sentindo o desconforto se acomodar entre eles. Não era o acordo que imaginara, mas também não via alternativa. Por fim, assentiu e entregou as poucas moedas que separara para aquele encontro. Tavian contou-as com rapidez e guardou-as sem expressão.
— Fale — disse.
Edric começou devagar, escolhendo as palavras como quem pisa em terreno instável. Contou sobre seu desejo de se tornar mago, sobre as tentativas repetidas de ingressar na Academia Arcana de Varethia e sobre as recusas constantes, sempre envoltas em formalidades frias. Disse que queria saber se havia outros métodos de aprender magia, caminhos que não passassem pelas portas fechadas da Academia.
Quando terminou, Tavian permaneceu em silêncio. Seus olhos não se desviaram de Edric, como se tentassem decifrar se aquilo era uma piada mal colocada ou uma confissão sincera. O tempo se estendeu de forma desconfortável, até que Edric começou a se remexer na cadeira, arrependido de cada palavra dita.
Por fim, Tavian falou.
— Esse tipo de pergunta tem um preço diferente.
Levantou-se, caminhou até uma pequena gaveta embutida na mesa e a abriu. De lá, retirou um pergaminho enrolado, cuidadosamente selado com cera escura. Voltou a se sentar e o colocou sobre a mesa, empurrando-o na direção de Edric.
— Tenho uma mensagem para entregar a um cliente. Não tenho tempo para levá-la. O preço para que eu responda sua pergunta é: você fará isso por mim.
Edric franziu o cenho.
— Entregar uma mensagem?
— E trazer a resposta — completou Tavian. — Imediata. Sem atrasos.
Explicou que o destinatário era um mercador conhecido por negociar especiarias raras, cuja residência ficava no extremo sul da cidade. A ida e a volta consumiriam algumas horas, talvez mais, dependendo do movimento nas ruas. Edric hesitou apenas o suficiente para perceber que, mais uma vez, não tinha escolha.
— Está bem — disse, estendendo a mão.
Tavian entregou-lhe o pergaminho, mas, antes que Edric se levantasse, acrescentou, com a mesma voz calma:
— Nada de bisbilhotar. Não quebre o lacre. E nem pense em desaparecer com isso. Se a mensagem não chegar ao destino, eu vou saber. E colocarei os guardas da cidade atrás de você.
Edric sentiu o rosto esquentar. Achou absurdo que Tavian sequer cogitasse algo assim, mas conteve qualquer protesto. Limitou-se a um aceno de cabeça.
Levantou-se, guardou o pergaminho com cuidado e virou as costas, deixando a sala com a sensação clara de que acabara de aceitar um acordo cujo verdadeiro custo ainda não compreendia. A missão o aguardava — e, com ela, a próxima parcela do preço que teria de pagar para continuar fazendo perguntas.
Edric usou a experiência que adquirira nos últimos dias para escolher o trajeto. Já não caminhava como um recém-chegado, perdido entre ruas largas e becos estreitos; aprendera a ler o fluxo da cidade, a evitar multidões quando precisava avançar e a se misturar a elas quando desejava passar despercebido. Alternou vias principais com passagens laterais, cruzou pequenas praças sem nome e atalhos entre armazéns, sempre atento ao peso do pergaminho oculto sob a túnica. Myriath lhe parecia menos caótica agora — não mais gentil, mas previsível o bastante para quem sabia observar.
À medida que avançava para o sul, o ar da cidade mudava. O cheiro de pão fresco e ferrugem dava lugar a aromas mais intensos: canela, pimenta seca, resinas adocicadas. As ruas tornavam-se mais largas novamente, pensadas para carroças carregadas, e os edifícios cresciam em altura e solidez. Armazéns de pedra ladeavam o caminho, marcados por símbolos comerciais e nomes gravados em placas bem cuidadas. Guardas privados substituíam os patrulheiros comuns, observando cada movimento com atenção silenciosa. Edric compreendeu que estava entrando no território onde o comércio falava mais alto do que qualquer decreto.
A residência do mercador destacava-se das demais não pelo exagero, mas pela ordem. Muros limpos, portões reforçados, janelas altas protegidas por grades trabalhadas. Edric aproximou-se com cautela e anunciou-se a um criado que logo o conduziu até o pátio interno. Ali, um homem de meia-idade examinava caixas abertas, avaliando mercadorias com olhar experiente.
— Procuro Ravian Corveth, mercador de especiarias — disse Edric.
O homem ergueu os olhos.
— Sou eu.
Edric retirou o pergaminho com cuidado e estendeu-o.
— Tenho uma mensagem para entregar. E preciso levar a resposta.
Ravian aceitou o pergaminho sem cerimônia. Rompeu o lacre, leu em silêncio, os olhos percorrendo o texto com rapidez treinada. Ao chegar ao final, franziu o cenho e soltou um murmúrio baixo, mais irritado do que surpreso.
— Aquele escriba só sabe arrancar meu couro…
Dobrou o pergaminho com cuidado excessivo, como se conter o papel fosse mais fácil do que conter o comentário. Em seguida, lançou um olhar breve a Edric.
— Aguarde.
Sem dizer mais nada, entrou na casa, deixando Edric sozinho no pátio. O tempo se arrastou em minutos longos demais para serem ignorados. Edric observou o vai e vem dos criados, o ranger distante de carroças, o cheiro constante das especiarias impregnando tudo ao redor. Pensou no acordo feito, na resposta que ainda não tinha, e no quanto aquela entrega já lhe custara em expectativa.
Por fim, Ravian retornou. Trazia nas mãos um novo pergaminho, devidamente enrolado e selado. Aproximou-se e o entregou a Edric.
— Leve isso de volta. Ele saberá o que fazer com a resposta.
Edric recebeu o pergaminho e fez um leve aceno de cabeça, sem ousar perguntar mais nada. Guardou-o com o mesmo cuidado com que o recebera e virou-se, deixando o pátio e a residência para trás.
Quando voltou às ruas, o peso do caminho parecia diferente. Agora não carregava apenas um objeto, mas a certeza de que cada passo o afastava um pouco mais da vida simples que conhecera. Ajustou a túnica, tomou fôlego e iniciou o caminho de volta, sabendo que a verdadeira cobrança ainda o aguardava.
Edric retornou à área dos escribas já com o sol avançando para o meio da tarde. O caminho de volta pareceu mais curto, talvez porque agora carregasse algo além do pergaminho selado: expectativa. Encontrou Tavian no mesmo aposento estreito, inclinado sobre a mesa, os dedos manchados de tinta. O escriba mal ergueu os olhos quando Edric se aproximou.
Sem dizer palavra, Edric estendeu o pergaminho. Tavian tomou-o das mãos dele como quem recebe algo que já lhe pertencia, rompeu o lacre e leu a resposta em silêncio. Seu rosto permaneceu imóvel até o final da carta, quando um leve traço de satisfação cruzou-lhe a expressão, rápido demais para ser comentado. Enrolou o pergaminho com cuidado, abriu uma gaveta e o guardou entre outros documentos, como se aquela troca fosse apenas mais uma linha encerrada em um livro maior.
— Sente-se — disse então, sem olhar para Edric.
Quando Edric obedeceu, Tavian apoiou os cotovelos na mesa e o encarou pela primeira vez com atenção verdadeira.
— Antes de responder à sua pergunta, quero saber suas motivações. Não o que você quer, mas por quê.
O tom não era acusatório, mas avaliador, como se estivesse pesando algo invisível. Edric demorou um instante para responder. Quando falou, sua voz saiu mais baixa do que pretendia.
— Meu pai tinha livros. Muitos. Livros sobre magia e sobre magos. Foi ele quem me ensinou a ler. Desde que comecei a entender aquelas palavras… eu fiquei fascinado. Não com poder, mas com o que eles faziam. Com a ideia de compreender o mundo de outra forma. Desde então, eu quis fazer o mesmo.
Tavian ouviu sem interromper, o olhar fixo, indecifrável. Quando Edric terminou, o escriba soltou um leve suspiro, quase imperceptível.
— Fascínio não é vocação — disse. — E dificilmente isso fará de você um mago.
Edric sentiu o peso da frase, mas Tavian continuou antes que ele pudesse reagir.
— Ainda assim, não é o meu papel decidir isso. Essa escolha é sua. Não farei esforço algum para impedi-lo. Além do mais… — fez um gesto vago com a mão — eu lhe devo a informação.
Endireitou-se na cadeira e falou com a objetividade de quem repassa um fato, não uma promessa.
— Já houve magos que se desenvolveram sem o apoio das academias. Poucos, é verdade. A maioria deles encontrou algum tipo de tutor clandestino, alguém disposto a ensinar à margem do que é permitido. Eu não conheço nenhum desses tutores.
Fez uma breve pausa, medindo as próximas palavras.
— Mas conheço alguém que talvez saiba.
Edric inclinou-se levemente para a frente.
— Um contador de histórias. Um pregador de praça. Um ancião de cabelos brancos que ganha a vida contando histórias antigas em troca de moedas ou comida. Fala demais, entende de menos… mas ouviu muita coisa ao longo dos anos.
Tavian fez uma breve pausa.
— Ele se chama Serith. Costuma ficar na Praça dos Degraus. Um lugar apropriado para quem vive de ser ouvido.
Edric abriu a boca para fazer outra pergunta, mas Tavian ergueu a mão, encerrando o assunto.
— Passar bem.
O tom era definitivo. O acordo estava cumprido, e nada mais seria obtido ali. Edric levantou-se, compreendendo que não adiantaria insistir. Ao deixar a sala, sentiu algo raro desde que chegara a Myriath: não alívio, mas esperança.
Saber que já houvera quem aprendesse magia fora das diretrizes do Conselho de Magos e das academias mudava tudo. Não era uma garantia, nem um caminho claro — mas era a prova de que as portas não eram tão absolutas quanto sempre lhe disseram.