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A Estrada do Reino

A Estrada do Reino estendia-se diante de Edric como uma cicatriz antiga sobre a terra, larga o bastante para duas carroças passarem lado a lado, feita de blocos de pedra gastos pelo tempo e por incontáveis jornadas. Não era uma via grandiosa, mas carregava uma solidez tranquila, como se tivesse sido construída para durar mais do que os próprios reinos que lhe deram nome. Ao longo de seus primeiros dias fora de Eldorwyn, Edric caminhava por ela com passo constante, sentindo que, ao menos ali, o mundo ainda seguia regras compreensíveis: o sol nascia e se punha sem pressa, os viajantes cumprimentavam-se com acenos, e nada parecia disposto a impedi-lo de avançar.

Enquanto caminhava, seus pensamentos retornavam repetidamente à decisão que tomara. Deixar Eldorwyn não fora difícil; difícil era aceitar que talvez nunca mais voltasse como o mesmo homem. A estrada, segura e previsível, contrastava com o turbilhão em seu interior. Varethia surgia em sua mente como sempre surgira: torres altas recortando o céu, mestres severos de olhos atentos, portas fechadas para aqueles que não possuíam o dom. Ainda assim, Myriath representava uma promessa intermediária — uma cidade menos rígida, onde informações circulavam com mais liberdade. Edric se perguntava se estava fugindo de Varethia ou apenas adiando um novo fracasso.

Edric acabou acompanhando outros que seguiam na mesma direção: um homem que conduzia uma carroça vazia de retorno a Myriath, uma jovem aprendiz de mercadora e um camponês que levava sacos de grãos para vender no mercado. Não caminhavam apressados, e a estrada, segura e conhecida, permitia conversas tranquilas, quebradas apenas pelo som ritmado dos passos e pelo rangido ocasional das rodas sobre a pedra.

— Não costuma ver muita gente saindo de Eldorwyn sozinho — comentou o camponês após algum tempo, lançando um olhar curioso a Edric. — Vai trabalhar na cidade?

— Ainda não sei — respondeu Edric, após breve hesitação. — Quero conhecer Myriath… entender melhor o que há além da vila.

O homem assentiu. Para ele, partir era algo prático, não carregado de significados ocultos. A jovem mercadora, porém, demonstrou mais interesse.

— Myriath é boa para quem procura oportunidades — disse ela. — Comércio, ofícios, informações. Melhor que Varethia, dizem.

Ao ouvir o nome da grande cidade arcana, Edric sentiu o impulso de falar, como sempre sentia.

— Já esteve em Varethia? — perguntou.

— Não — respondeu ela prontamente. — Nunca precisei. Ouvi histórias, claro. Magos, academias, regras demais. Parece distante… como algo que existe, mas não nos pertence.

Edric refletiu sobre aquelas palavras enquanto caminhava.

— Para mim, sempre pareceu o contrário — disse, quase sem perceber. — Como se tudo o que importa estivesse lá.

O cocheiro riu baixo, sem malícia.

— Talvez importe para quem nasceu para isso — comentou. — Para o resto de nós, o mundo já é complicado o bastante sem magia envolvida.

Não havia desprezo naquela fala, nem medo. Apenas constatação. Aquilo intrigou Edric mais do que qualquer rejeição explícita. Desde menino, crescera imaginando que a magia era um farol para todos, algo admirado à distância mesmo por quem jamais o alcançaria. Descobrir que, para muitos, ela era apenas mais uma curiosidade distante fazia seu sonho parecer ao mesmo tempo mais solitário e mais pessoal.

Enquanto seguiam pela estrada, Edric arriscou mais uma pergunta, como quem tateia um pensamento ainda malformado.

— Vocês acreditam que a magia seja algo que se aprende… ou que já se nasce com ela?

A jovem mercadora pensou por um instante antes de responder.

— Acho que algumas pessoas nascem com talentos diferentes. Uns sabem negociar, outros cultivar a terra. Talvez a magia seja apenas isso… só que mais rara.

O camponês deu de ombros.

— Se pode ser aprendida, nunca vi prova disso. E se nasce com alguém, então não adianta querer forçar.

As palavras não eram duras, mas ficaram com Edric. Ele continuou caminhando em silêncio por um tempo, sentindo o peso da estrada não nas pernas, mas no pensamento. Se estavam certos, então todo seu esforço desde a infância fora inútil. Ainda assim, havia algo dentro dele que se recusava a aceitar aquela simplicidade. A estrada seguia firme, indiferente às dúvidas humanas, conduzindo todos igualmente — mas Edric começava a perceber que, embora compartilhassem o mesmo caminho, cada um carregava um destino muito diferente no coração.

Ao entardecer, quando o céu começava a se tingir de tons alaranjados e a estrada assumia um brilho mais frio, o cocheiro apontou adiante, onde pequenas luzes tremeluzentes denunciavam uma vila próxima à Estrada do Reino, chamada Briarholme. Não era mais que um agrupamento de casas baixas, celeiros e uma única estalagem de fachada robusta, mas a ideia de uma noite em abrigo fechado pareceu agradar a todos. A aprendiz de mercadora concordou de imediato, e Edric, já sentindo o cansaço se acumular nos ombros, não viu razão para seguir adiante no escuro.

A estalagem revelou-se surpreendentemente acolhedora. Construída em madeira escura e pedra, tinha janelas largas por onde escapava a luz quente das tochas e da lareira central. Ao entrar, foram recebidos por uma onda de calor e pelo burburinho constante de vozes, risadas e passos. O cheiro de pão recém-assado, carne assando lentamente e cerveja encorpada misturava-se ao da fumaça da lareira, criando uma atmosfera que convidava ao descanso. Cada um tratou de garantir seu próprio quarto — simples, mas limpo — e de guardar seus pertences em segurança antes de descer novamente para o salão principal.

Quando retornaram, encontraram uma mesa livre próxima à lareira. Pouco depois, travessas fumegantes foram colocadas à frente deles, e o cocheiro não escondeu o alívio ao sentir o aroma da comida.

— Nada como uma refeição quente depois de um dia inteiro na estrada — disse ele, partindo um pedaço de pão com as mãos calejadas. — Se a estrada é boa, metade do mérito é dessas estalagens.

— E da manteiga — acrescentou a aprendiz de mercadora, sorrindo enquanto espalhava uma generosa camada sobre o pão. — Em algumas vilas, economizam até nisso.

Edric provou a carne lentamente, saboreando mais do que costumava em Eldorwyn.

— Nunca pensei que algo tão simples pudesse parecer tão… reconfortante — comentou.

— Aprende-se rápido a valorizar o que sustenta — respondeu o cocheiro. — Sonhos não enchem o estômago.

Antes que Edric pudesse responder, o som de um alaúde elevou-se no salão. Em um dos cantos, um bardo havia se acomodado sobre um pequeno estrado improvisado, dedilhando as cordas com habilidade tranquila. Sua voz começou a se espalhar pelo ambiente, firme e clara, e as conversas diminuíram aos poucos.

“Por trilhas de pedra e céus de verão,

Marchou o herói sem nome e sem lar,

Com ferro na mão e fé no coração,

Jurando jamais recuar.”

A aprendiz de mercadora inclinou a cabeça, atenta.

— Ele é bom — disse em voz baixa. — Já ouvi muitos bardos, mas poucos sabem segurar uma sala assim.

— Histórias conhecidas ajudam — respondeu o cocheiro. — As pessoas gostam do que já entendem.

Edric ouviu em silêncio, acompanhando cada verso. Quando a canção terminou, outra começou quase sem pausa, falando de donzelas presas em torres altas e promessas feitas sob a luz da lua.

“Ela esperou onde o vento canta,

Entre pedras frias e preces vãs,

Pois mesmo o tempo se ajoelha e cansa

Diante de um amor que não volta atrás.”

— Sempre as mesmas histórias — murmurou o cocheiro, embora sorrisse. — Heróis, donzelas, batalhas.

— Porque são fáceis de lembrar — respondeu a aprendiz. — E fáceis de vender.

Edric franziu levemente o cenho.

— Estranho não falar de magos — disse, mais para si do que para os outros.

A aprendiz olhou para ele com curiosidade.

— Magos não rendem boas canções?

— Renderiam — respondeu Edric. — Há feitos tão grandiosos quanto qualquer guerra.

— Talvez — disse o cocheiro —, mas são histórias distantes. Pouca gente viu magia de perto.

As músicas seguiram, agora narrando antigas guerras entre reinos esquecidos, lanças quebradas e estandartes caídos. Edric percebeu que, embora o salão estivesse envolvido pela melodia, ninguém parecia esperar nada além daquilo: entretenimento, não revelação.

“E quando o último estandarte caiu,

E a terra bebeu sangue e dor,

Os nomes dos reis o vento sumiu,

Mas ficou a canção, ficou o clamor.”

Quando o bardo finalmente fez uma pausa, pousando o alaúde ao lado e aceitando uma caneca oferecida por um dos presentes, Edric sentiu o impulso que vinha crescendo desde a primeira música. Após um breve momento de hesitação, levantou-se.

— Sua música é impressionante — disse, com sinceridade. — Consegue fazer a estrada parecer mais curta.

O bardo sorriu, com aquele sorriso fácil de quem já ouvira elogios semelhantes muitas vezes.

— Se consigo isso, então cumpro bem meu ofício — respondeu. — As pessoas viajam melhor quando acreditam nas histórias.

— O senhor conhece muitos lugares? — perguntou Edric. — Cidades distantes?

— Mais do que consigo lembrar — disse o bardo, dando de ombros. — Cada lugar deixa uma marca… e uma melodia.

Edric respirou fundo antes de continuar.

— E quanto à magia? Já viu algo… verdadeiro?

O bardo o observou por um instante antes de responder.

— Vi magos em algumas cidades. Em Varethia, são muitos, mas raramente cantados. Em outros lugares, poucos e discretos. A magia existe, rapaz, mas nem sempre quer ser lembrada.

O coração de Edric se encheu de entusiasmo.

— Então o senhor conhece alguma canção sobre magos?

O bardo abriu um sorriso mais largo, levantando-se.

— Conheço uma que não canto com frequência.

Ajustou o alaúde, e quando voltou a tocar, o tom mudou. A melodia tornou-se mais grave, mais lenta, e o salão silenciou quase por completo.

“Quando torres rivais tocaram o céu,

E a chama respondeu ao trovão,

Magos ergueram saber cruel

Em nome de visão e razão.

Runas quebraram, o mundo tremeu,

E o preço foi alto demais a pagar,

Pois toda magia que ao auge ascendeu

Deixou cicatrizes que não vão sarar.”

Edric ouviu como quem recebe uma verdade antiga. Ali, entre notas e versos, sentiu que a magia não era apenas desejo ou estudo, mas força capaz de moldar eras inteiras — e de destruí-las. Quando a última corda cessou e os aplausos preencheram o salão, ele permaneceu imóvel por alguns instantes, certo de que aquela canção ficaria com ele por muito tempo, ecoando na estrada silenciosa dos dias que ainda estavam por vir.

Quando os aplausos cessaram e o burburinho do salão retomou seu ritmo habitual, o bardo desceu do pequeno estrado e caminhou entre as mesas com o alaúde pendendo do ombro. Seus passos o conduziram até onde Edric, o cocheiro e a aprendiz de mercadora ainda permaneciam sentados, e houve ali um breve momento de hesitação, como se ele estivesse escolhendo não apenas um lugar, mas uma conversa.

— Posso me juntar a vocês? — perguntou, com um sorriso.

O cocheiro fez um gesto vago com a mão, afastando a dúvida.

— Se tiver espaço para mais uma caneca, tem espaço para mais um viajante.

O bardo agradeceu com um aceno e chamou a estalajadeira, pedindo uma refeição quente e algo para beber. Enquanto aguardava, pousou o alaúde com cuidado ao seu lado e apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Não costumo deixar canções sem rosto — disse ele. — Sou Lorien, filho de estrada mais do que de qualquer lar.

A aprendiz de mercadora sorriu.

— Então somos parecidos — disse. — Maia, de Myriath.

— Brann — completou o cocheiro, batendo levemente o punho no peito. — E você, rapaz?

— Edric — respondeu. Dizer o próprio nome ali, longe de Eldorwyn, soou diferente do que imaginara.

Por um instante, a conversa se deteve em trivialidades: o frio da noite, o movimento da estalagem, o gosto da cerveja. Quando a comida de Lorien chegou e ele partiu o pão ainda quente, foi Brann quem quebrou o silêncio.

— Você escuta canções como quem procura algo — comentou, observando Edric com atenção prática. — Não parecia interessado em heróis ou donzelas.

Edric sentiu o calor subir-lhe ao rosto, mas não desviou o olhar.

— Eu estava esperando outra coisa — admitiu. — Histórias de magos.

Maia arqueou levemente as sobrancelhas.

— Não é um tema comum para se pedir — disse. — A maioria prefere algo mais… próximo.

— Para mim, não é distante — respondeu Edric, e percebeu que já não fazia sentido guardar aquilo. Respirou fundo antes de continuar. — Quero aprender magia. Quero me tornar um mago.

Seguiu-se um silêncio mais prolongado do que haviam pretendido.

Brann foi o primeiro a reagir.

— Um sonho grande — disse, após um momento. — Nada errado nisso. Mas sonhos grandes costumam exigir costas largas.

Maia inclinou a cabeça, estudando Edric como se avaliasse uma mercadoria rara.

— Já tentou Varethia? — perguntou.

— Tentei — respondeu ele. — Mais de uma vez.

Ela assentiu, compreensiva.

— Então você não está fugindo de algo… está procurando outro caminho.

Lorien, que até então apenas ouvia, apoiou-se um pouco mais à frente, os olhos atentos.

— E o que você espera encontrar nesse caminho? — perguntou. — Poder? Respostas? Ou apenas a chance de tentar?

Edric não respondeu de imediato.

— Quero entender — disse por fim. — Saber por que alguns podem… e outros não. E se realmente não posso, quero descobrir por mim mesmo.

O bardo sorriu de forma quase imperceptível.

— Essa é uma razão melhor do que a maioria que já ouvi.

A conversa seguiu, agora mais solta. Edric contou que partiria para Myriath ao amanhecer, em busca de informações, livros, qualquer coisa que o aproximasse do que sempre desejara. Brann comentou sobre as rotas da cidade, Maia falou dos mercados e das pessoas certas a quem se deveria ouvir.

Então Lorien limpou as mãos no pano e tornou a falar.

— Myriath também é meu destino — disse. — Tenho uma apresentação marcada… e algumas histórias a buscar. Se não for um incômodo, posso seguir com vocês pela estrada.

Brann deu de ombros.

— Quanto mais gente, menos silêncio.

— E mais histórias — acrescentou Maia.

Edric sentiu algo parecido com alívio.

— Não seria um problema — disse. — Eu gostaria da companhia.

Lorien assentiu, satisfeito, e tomou um gole longo de sua caneca.

— Então seguimos juntos ao amanhecer. Às vezes, é no caminho que as melhores canções começam a tomar forma.

Edric olhou ao redor da mesa e, pela primeira vez desde que deixara Eldorwyn, sentiu que seu sonho havia sido dito em voz alta — e ouvido. A estrada continuava segura, previsível, mas agora havia nomes, vozes e uma promessa silenciosa de que o mundo talvez fosse maior do que ele imaginara.

O sol ainda se erguia baixo quando os quatro deixaram Briarholme, e a vila logo ficou para trás, engolida pela leve neblina da manhã que se acumulava nos campos ao redor da Estrada do Reino. O ar estava frio, mas limpo, e o caminho seguia firme sob os pés, como se prometesse um dia tranquilo. Lorien caminhava à frente por alguns momentos, o alaúde pendendo do ombro e um sorriso persistente no rosto, como alguém que já havia despertado com uma canção presa na garganta.

— É um bom dia para andar — disse ele, rompendo o silêncio. — E dias bons pedem música.

Maia riu, ajustando a bolsa que carregava ao lado do corpo.

— Se for cantar enquanto andamos, talvez o caminho pareça mais curto.

— Isso nunca foi problema para mim — respondeu Lorien, já dedilhando as cordas com leveza.

A melodia surgiu simples, acompanhando o ritmo dos passos, e sua voz não era alta, mas firme o bastante para alcançar a todos. Falava de estradas abertas, de viajantes que partiam sem olhar para trás e de cidades que surgiam no horizonte como promessas. Brann resmungou algo sobre preferir ouvir o rangido das rodas da carroça, mas não tentou interromper, e Edric percebeu que o peso que carregara desde a noite anterior parecia um pouco menor.

Quando a canção terminou, Maia bateu palmas de leve.

— Confesso que não imaginei começar o dia assim — disse. — Normalmente, as manhãs na estrada são silenciosas demais.

— O silêncio também tem seu valor — comentou Brann. — Mas música ajuda a esquecer o cansaço.

— Ou a lembrá-lo com mais poesia — respondeu Lorien, sorrindo.

Edric aproveitou o momento.

— Você canta sobre lugares que viu… ou apenas imagina?

— Um pouco dos dois — respondeu o bardo. — A estrada ensina, mas a imaginação completa o que falta. Há cidades que só existem porque alguém as cantou primeiro.

Maia inclinou a cabeça, pensativa.

— Em Myriath, há pessoas que vivem disso — disse. — Histórias, rumores, informações. Às vezes, saber onde procurar vale mais do que saber tudo.

— Verdade — concordou Brann. — Informação não pesa na bolsa, mas pode salvar uma viagem.

Edric caminhou alguns passos em silêncio antes de falar.

— E a magia? — perguntou, olhando para Lorien. — Ela também se perde se ninguém falar dela?

O bardo não respondeu de imediato.

— A magia não se perde — disse por fim. — Ela se esconde. Quando deixa de ser cantada, deixa de ser lembrada… e então passa a agir longe dos olhos.

Brann franziu o cenho.

— Sempre achei que magia fosse coisa de torre e livro — disse. — Algo que só existe onde deixaram existir.

— Talvez — respondeu Lorien. — Ou talvez ela apenas não se importe com quem acredita nela.

Maia olhou para Edric.

— E você? — perguntou. — Acha que aprender magia é aprender um ofício… ou ouvir algo que já está aí?

Edric pensou antes de responder.

— Acho que é entender por que ela me chama tanto — disse. — Mesmo quando ninguém mais parece ouvir.

Brann soltou um suspiro breve.

— Só não deixe que isso te faça esquecer de viver — disse. — Já vi gente perder anos perseguindo algo que nunca respondeu.

— E já vi gente viver a vida inteira sem nunca perguntar — retrucou Lorien, sem dureza.

A estrada continuava diante deles, banhada pela luz crescente do dia, e Edric sentiu que aquelas vozes — tão diferentes entre si — estavam moldando seu pensamento de formas que ele ainda não compreendia por completo. Não havia resposta clara, nem promessa, apenas a sensação de que, enquanto caminhasse e ouvisse, o caminho não seria solitário.

Após mais alguns passos, Lorien voltou a tocar, agora uma melodia, quase um assobio acompanhado de cordas. Maia sorriu, Brann balançou a cabeça em resignação, e Edric seguiu adiante, com a certeza de que aquela estrada segura começava, pouco a pouco, a levá-lo para além do que ele imaginara possível.

A melodia que Lorien entoava agora era mais leve, quase um acompanhamento para os passos, e depois de alguns minutos ele deixou o alaúde descansar novamente contra o corpo. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som distante de uma carroça em sentido oposto, mas logo a estrada voltou a pertencer apenas a eles.

— Você canta como se a estrada fosse sua casa — comentou Maia, ajustando o manto contra o vento leve da manhã.

— Porque é — respondeu Lorien, sem hesitar. — Não no sentido de ter paredes, mas no de não me expulsar.

Brann soltou um breve riso nasal.

— Estrada não expulsa ninguém porque não promete nada — disse. — É por isso que gosto dela.

Edric caminhava atento, sentindo que aquelas frases simples carregavam mais do que aparentavam.

— E nunca pensou em parar? — perguntou ao bardo. — Ficar em uma cidade, viver de outra coisa?

— Já — respondeu Lorien. — Muitas vezes. Mas sempre que fico tempo demais, começo a ouvir a estrada me chamando. Não com palavras, mas com ausência.

Maia inclinou a cabeça.

— Ausência?

— De histórias novas — explicou ele. — Quando tudo ao redor já é conhecido, a canção começa a morrer.

Brann cruzou os braços.

— Nem todo mundo precisa de histórias novas — disse. — Alguns precisam de estabilidade.

— E você, Brann? — perguntou Edric. — Nunca quis algo além do que já tem?

O cocheiro demorou alguns passos para responder.

— Já quis — disse por fim. — Quando era mais jovem. Pensei em seguir com uma caravana para o norte, aprender outro ofício. Mas percebi que querer nem sempre é saber sustentar.

— Sustentar o quê? — perguntou Maia.

— A frustração — respondeu ele. — Sonhos grandes deixam grandes marcas quando falham.

Edric sentiu o comentário como um peso discreto, mas não desviou.

— E se não tentar for uma falha maior?

Brann o olhou de lado, avaliando.

— Essa é a pergunta que só quem tenta consegue responder.

Maia sorriu levemente.

— Viu? — disse a Edric. — Ele não te desencoraja. Só não te ilude.

Lorien observava os três com atenção, como quem ouve uma música sendo composta em tempo real.

— Vocês falam de sonhos como se fossem objetos — comentou. — Algo que se carrega ou se deixa para trás. Mas sonhos mudam.

— O seu mudou? — perguntou Edric.

— Muitas vezes — respondeu o bardo. — No começo, eu queria ser lembrado. Depois, quis entender o que estava cantando. Hoje, só quero não mentir nas minhas canções.

Maia franziu o cenho.

— Mentir?

— Exagerar o que não se compreende — disse Lorien. — Tornar grandioso aquilo que foi apenas trágico. A magia, por exemplo, costuma sofrer com isso.

Edric sentiu o coração acelerar levemente.

— Como assim?

— Já cantei sobre magos como salvadores — disse o bardo. — Depois vi cidades marcadas por decisões deles. Nem heróis, nem monstros. Apenas pessoas com poder demais para erros simples.

Brann assentiu.

— Isso soa mais próximo da verdade.

Maia voltou-se para Edric.

— Ainda quer seguir esse caminho sabendo disso?

Edric respirou fundo.

— Quero — disse. — Justamente por isso. Se a magia existe, alguém precisa entendê-la sem transformá-la em lenda.

Lorien sorriu, satisfeito.

— Essa é uma resposta rara.

A estrada começou a descer suavemente, e ao longe campos mais amplos se abriam. O sol já estava mais alto quando Maia falou:

— Em Myriath há um escriba que coleciona relatos estranhos. Não é mago, mas sabe ouvir. Se alguém pode apontar um começo, talvez seja ele.

— Um começo já basta — respondeu Edric.

Brann olhou para Maia.

— Sempre negociando caminhos.

— Informação também é mercadoria — disse ela. — Só exige mais cuidado.

Lorien voltou a tocar, agora um trecho curto, quase um refrão repetido, e cantarolou baixo:

“Nem toda chama busca o céu,

Algumas apenas querem ar;

Nem todo sonho nasce fiel,

Mas todo passo é caminhar.”

Edric ouviu aquelas palavras como se fossem ditas apenas para ele.

— Lorien — disse — você acredita que algumas pessoas nascem… destinadas?

O bardo pensou antes de responder.

— Acredito que algumas pessoas nascem inquietas — disse. — E o mundo não gosta de quem não se acomoda.

Brann soltou um suspiro.

— Isso explica muita coisa.

Maia riu.

— E explica por que seguimos juntos agora.

Edric olhou para os três, sentindo algo novo se formar. Não era certeza, nem esperança plena, mas companhia — e, pela primeira vez, seu sonho não parecia algo que ele carregava sozinho.

— Obrigado — disse, quase sem perceber.

— Pelo quê? — perguntou Brann.

— Por ouvir — respondeu Edric.

Lorien pousou a mão sobre o alaúde.

— Histórias começam assim — disse. — Alguém falando. Alguém ouvindo. O resto… a estrada resolve.

E eles seguiram, com o som dos passos marcando o ritmo e as vozes se entrelaçando como versos ainda inacabados, enquanto Myriath, invisível além do horizonte, começava lentamente a se aproximar — não apenas como um destino, mas como a próxima pergunta que Edric teria de enfrentar.

Os dias que se seguiram foram marcados por uma rotina tranquila, quase meditativa. A Estrada do Reino manteve-se fiel à sua promessa de segurança, conduzindo-os por campos amplos, colinas suaves e pequenas vilas que surgiam e desapareciam com a mesma discrição. Dormiram em estalagens ou sob o teto generoso do céu aberto, dividiram refeições modestas e seguiram sempre adiante, guiados mais pelo ritmo constante da estrada do que pela pressa de chegar.

Lorien preenchia muitas das caminhadas com canções, algumas alegres, outras melancólicas, e às vezes interrompia a música apenas para contar de cidades distantes ou de encontros passageiros que haviam lhe rendido versos. Maia falava de Myriath com conhecimento crescente, descrevendo mercados movimentados, escribas atentos e o fluxo incessante de pessoas e informações que tornava a cidade diferente de qualquer vila da estrada. Brann, por sua vez, contribuía com comentários práticos, alertando sobre caminhos melhores, horários mais seguros e a importância de não chegar cansado demais a uma cidade grande.

Edric ouvia mais do que falava. Em meio às conversas, aos silêncios compartilhados e ao som constante dos passos sobre a pedra, seus pensamentos iam se organizando de forma inesperada. O sonho de se tornar mago continuava vivo, mas agora parecia menos idealizado, menos solitário. Ele começava a entender que a estrada não servia apenas para levar alguém a um destino, mas para desgastar certezas e dar forma a perguntas melhores.

Na manhã do último dia, o ar estava mais seco, e a estrada começou a subir lentamente. O vento trazia consigo um cheiro diferente — não de terra ou madeira, mas de fumaça distante e metal aquecido. Brann foi o primeiro a reduzir o passo, olhando adiante com atenção.

— Estamos perto — disse, simplesmente.

Pouco depois, ao atingirem o topo de uma elevação suave, a paisagem se abriu diante deles. Ao longe, estendendo-se por uma vasta área, surgia Myriath. Suas muralhas claras refletiam a luz do sol, e além delas erguiam-se torres, telhados e estruturas de pedra que pareciam se multiplicar até onde a vista alcançava. Uma leve névoa pairava sobre a cidade, cortada aqui e ali por colunas de fumaça que subiam de forjas, lareiras e mercados.

Maia parou ao lado de Edric.

— Bem-vindo a Myriath — disse. — Onde quase tudo passa… e quase nada permanece.

Lorien observava a cidade com um sorriso contido, como quem reencontra um velho conhecido.

— Cada vez que a vejo, ela parece diferente — comentou. — E, ainda assim, sempre igual.

Edric permaneceu em silêncio por alguns instantes, sentindo o peso e a promessa daquele lugar. Myriath não era Varethia, nem Eldorwyn. Não carregava a rigidez da Academia nem a simplicidade da vila. Era algo intermediário, vivo, incerto — exatamente como ele próprio se sentia naquele momento.

— É aqui — disse por fim, mais para si do que para os outros.

A estrada seguia adiante, descendo em direção às portas da cidade, e Edric deu o primeiro passo sem hesitação. Atrás dele, os demais o acompanharam, e juntos começaram a descer rumo a Myriath, enquanto o capítulo de sua jornada na estrada se encerrava, dando lugar a tudo o que ainda estava por vir.